Cerco ao tráfico

Prisão no Paraguai deve quebrar o fornecimento de maconha para o Rio Grande do Sul

Estimativa do Denarc é de que pelo menos 80% da droga apreendida neste ano no Estado teve participação de Neri José Soares, detido na última sexta-feira

Por Eduardo Torres
17/07/2017 - 17h40min
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Neri, ex-morador de Porto Alegre, foi preso no Paraguai na última sexta-feira
Neri, ex-morador de Porto Alegre, foi preso no Paraguai na última sexta-feira Foto: Ministerio del Interior del Paraguay / Divulgação

A prisão de Neri José Soares, 39 anos, na última sexta-feira no Paraguai, acredita a polícia, representou a "quebra da coluna vertebral" do tráfico de maconha para o Rio Grande do Sul. A suspeita dos investigadores do Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (Denarc) é de que Neri detinha o monopólio da maconha no Estado.

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— Neste ano, apreendemos 2,2 toneladas desta droga no Rio Grande do Sul. Destas, 1,8 tonelada foi resultado de apreensões de grandes cargas. É bem provável que a chegada desses carregamentos até aqui tenha a influência do Neri em algum momento dessa cadeia — explica o diretor de investigações do Denarc, delegado Mario Souza.

Ouça entrevista do delegado Mario Souza ao programa à Rádio Gaúcha.

Entre as cargas, estariam as apreensões de mais de uma tonelada encontrada em depósitos e caminhões nas últimas semanas. A droga tinha um leão como selo. Esta seria a marca de um cartel paraguaio que distribui drogas a diversas facções brasileiras.

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A quantidade representa 80% de toda a apreensão de maconha do RS neste ano. Conforme os investigadores, não significa que imediatamente cairá nessa proporção o tráfico da droga entre as quadrilhas locais. Mas será uma quebra.

— Até agosto, os traficantes que atuam no Paraguai vivem do lucro da safra da maconha. É possível que alguma carga ainda não descoberta possa estar rodando ou escondida em algum local, mas podemos assegurar que levará um tempo para que esse contato para a saída de novas cargas grandes em direção ao Estado seja rearticulado — aponta o delegado (abaixo, entrevista do delegado à Rádio Gaúcha).

A suspeita do departamento é de que Neri José Soares, além do tráfico no Rio Grande do Sul, controle boa parte do fornecimento de maconha para Santa Catarina, Paraná e Bahia. 

Em São Paulo, há suspeita de que seja um dos mais fortes contatos do Primeiro Comando da Capital (PCC) — entre outros — para o fornecimento desse tipo de droga. Mesma relação ele teria com traficantes do Rio de Janeiro.

Fazia um ano e sete meses que uma equipe de duas policiais e um escrivão dedicavam-se a seguir os passos do criminoso em solo paraguaio. Ele teria se estabelecido lá há cinco anos, desde que foi considerado foragido pela Justiça gaúcha. E aí mudou o seu status.

— São 15 anos de relações dele com o Paraguai, e cinco fixo naquela região. Então ele deixou de ser um líder do tráfico preocupado com o seu território e as relações aqui de Porto Alegre, na Vila Nazareth. 

Hoje o Neri é investigado como um negociador. Ele faz a ponte entre o traficante brasileiro e os fornecedores de maconha paraguaios. Não creio que vá aumentar a violência aqui por essa prisão, mas vai demorar um tempo para reorganizarem os contatos e fortalecerem suas rotas — diz o delegado Guilherme Calderipe, que coordenou a operação na última sexta.

Até o começo desta década, Neri José Soares era apontado pela Polícia Civil como um traficante que controlava rotas de envio da maconha e armas, com o uso de caminhões, para o Rio Grande do Sul, a Região Sudeste e o Nordeste. Agora, acredita o delegado Calderipe, o caminho da droga em solo brasileiro já não seria gerenciado pelo homem apontado como o alvo número 1 do Denarc.

— Então, ele não se envolve em confrontos de facções e outras rivalidades. Negocia com todos eles — afirma.

Conforme as estimativas da polícia, nos meses de safra da maconha, Neri chega a movimentar R$ 100 milhões. A droga chegaria ao Brasil em lanchas controladas por ele que, em solo paraguaio, seria conhecido como Gaúcho.

Maconha com "selo" do Paraguai foi apreendida no EstadoFoto: Vitor Rosa / Agencia RBS

Preso por mortes violentas

Mesmo sendo apontado como o preso número 1 do Denarc, Neri José Soares não tinha prisão decretada por tráfico de drogas. Tinha dois mandados de prisão contra si decretados em abril de 2013 e em outubro de 2016.

O primeiro destes crimes foi a morte do traficante Jaime Pincerno Kersting, o Lampião. Conforme a condenação, Neri teria ordenado o crime executado por outros três homens. Lampião era o antigo patrão do tráfico na Vila Nazareth, no bairro Sarandi, onde Neri José Soares foi criado e entrou no crime.

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Depois da morte de Lampião, ele ainda foi apontado como mandante das mortes da mulher do Lampião e de um segurança dela. Os corpos foram encontrados em um poço de Gravataí.

Os crimes, apontaram as investigações na época, serviram para que Neri estabelecesse o controle da Nazareth. O local é apontado pelo Denarc como o principal fornecedor de maconha para grupos criminosos de Porto Alegre e da Região Metropolitana.

Em meio às guerras de facções na zona norte da Capital, a vila é considerada um ponto neutro. Agora o Denarc abriu um inquérito por tráfico de drogas contra Neri.

Irmãos foram executados

A prisão de Neri José Soares pode ajudar a polícia a esclarecer as motivações para os assassinatos dos seus dois irmãos. No ano passado, Nei José Soares, o Pipoca, foi morto a tiros na zona norte de Porto Alegre. Já em abril deste ano, foi a irmã dele, Neida Francisca Soares, quem acabou executada com diversos disparos.

De acordo com o delegado Cassiano Cabral, que apura os dois crimes pela 3ª Delegacia de Homicídios de Porto Alegre (DHPP), mesmo com histórico no tráfico de drogas, não havia informações de que a irmã de Neri ainda estivesse envolvida com esse tipo de crime.

— Prendemos dois jovens apontados como executores deste crime e indiciamos quem teria lhes dado a ordem direta para a morte da Neida. A motivação, no entanto, ainda não está plenamente esclarecida — diz.

No inquérito que investigou a morte de Pipoca, a polícia também indiciou o mandante direto do crime. Era o mesmo do último caso, um traficante conhecido como Confusão, com atuação no bairro Rubem Berta. Ele segue solto.

— Não descartamos a possibilidade de que ele tenha recebido ordens superiores para as execuções — revela o delegado.

A polícia investiga se o irmão teria alguma relação com as duas mortes.

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