Guerra ao tráfico

Conheça a história do policial que recusou R$ 1 milhão e prendeu traficante em Tramandaí

Saiba como um capitão da Brigada Militar entrou no caminho de um dos principais traficantes da Região Sul e não aceitou suborno para deixá-lo ir

Por Humberto Trezzi
12/08/2017 - 14h30min
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Casa foi invadida na quinta-feira pela BM, que encontrou e prendeu nove pessoas
Casa foi invadida na quinta-feira pela BM, que encontrou e prendeu nove pessoas Foto: Divulgação / Brigada Militar / Brigada Militar

— Honra vem de berço. 

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Essa é a explicação do capitão da Brigada Militar de 46 anos para ter recusado a oferta de R$ 1 milhão para deixar de prender um homem, na última quinta-feira. O suborno teria sido oferecido por Paulo Vieira de Mello, o Paulo Seco, que fez história no tráfico de drogas. Seco e o PM, que não é identificado para evitar represálias, estavam frente a frente em Tramandaí, na mansão alugada pelo criminoso, e que hospedava ao todo nove pessoas.

O curioso disso tudo é que a tentativa de pagar propina foi feita em frente a oito policiais militares, colegas do oficial. A rigor, Paulo Seco não teria por que tentar comprar sua fuga, já que não tem contas a acertar com a Justiça no momento. Está em liberdade condicional desde abril de 2016. O problema é que é alvo de outras investigações por tráfico — talvez tenha preferido assegurar a liberdade antes de ser condenado novamente.

Há 27 anos na Brigada Militar e ex-integrante da P2 (serviço secreto da PM) por sete anos, o oficial havia recebido informes sobre o vaivém de gente suspeita, falando espanhol, na mansão no bairro Cruzeiro do Sul. A atribuição de investigar, via de regra, é com as polícias Civil e Federal. Mas nada impede que o PM questione, pergunte, cheque. Foi o que o capitão fez. Verificou que a casa era frequentada por vários carros de Santa Catarina e do Paraná. Na escola onde crianças estudavam, um casal morador da mansão se apresentou como oriundo do Pará. Ele conferiu os CPFs, os nomes não batiam. Resolveu abordar a mulher que seria esposa do dono da casa. Ela não resistiu, mostrou documentos, mas se mostrou desconfortável. Na Blazer que ele tripulava existiam várias identidades com fotos dela, mas nomes diferentes.

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O policial a manteve detida (por falsidade ideológica) e pediu para acompanha-la até sua casa, sempre de olho em possíveis ligações telefônicas. Foram quatro viaturas que, ao chegar na mansão, surpreenderam um grupo de homens em tentativa de fuga. O palpite dos PMs estava certo. Feito o cerco, foram detidas ao todo nove pessoas (três mulheres e cinco homens). Um deles é Marino Brum, foragido da Justiça por roubo de caminhões na região de Uruguaiana. Está condenado até 2029 e garante que se regenerou, agora importa calcinhas para vender.

Dois homens falando em espanhol admitiram serem colombianos. São da cidade de Pereira. Casualmente (ou não), terra de atuação do megatraficante colombiano Juan Carlos Abadia, preso no Brasil em 2007. Ele é suspeito de mais de 300 homicídios.

Por fim, a cereja do bolo: Paulo Seco, que se identificou com o próprio nome, já que não está foragido. Foi aí que veio a oferta de suborno, devidamente recusada, como conta o capitão na entrevista a seguir:

Onde estava guardado o dinheiro do bando?

Dentro de um compartimento secreto na Blazer, na carenagem (entre o metal e a forração). Eram R$ 103 mil. Na casa encontramos outros sete veículos (entre eles, Frontier, Amarok, Zafira e Peugeot 207), além de um caminhão e uma retroescavadeira. Achamos também na mansão 40 celulares — para que tanto? — e ferramentas como as usadas em arrombamento de caixas eletrônicos. Acho que elas e a máquina seriam utilizadas para isso.

Ao ser abordado, o que o Paulo Seco disse?

Estava muito calmo. Confirmou que está em liberdade condicional, não mentiu. E falou que estava em Tramandaí para vender carros. Não acreditei. Conheço a história dele do tempo em que era procurado pela Interpol.

Como foi a oferta de suborno?

Ele chamou um tenente e pediu para falar com o comandante da guarnição. Fui chamado. Aí o Paulo Seco falou: "me solta e aos meus amigos. Te dou R$ 1 milhão".

De onde sairia o dinheiro?

Ele não detalhou, mas disse que chegaria rápido. Até acreditei. Quem anda com R$ 100 mil em cédulas num carro?

O senhor já tinha visto R$ 100 mil?

Só tinha visto tanto dinheiro em banco. Na minha mão, não.

O senhor pensou a respeito?

Não (risos). Honra vem de berço. Oferta existe, Tramandaí não é cidade pequena. Todo dia tem prisão. Mas se aceitar, a cobrança vem depois.

O senhor tem dívidas, prestações? O salário está parcelado?

Pago prestações de carro e da casa. E o salário está parcelado, o de todos oficiais está. Mas fazer o quê? Polícia é vocação.

Paulo Seco, condenado três vezes, foi preso em 2010 e estava em liberdade condicionalFoto: Polícia Federal / Divulgação

Seco não é um qualquer no crime. Ex-mecânico de carros em Passo Fundo, associou-se ao conhecido traficante — e patrão de CTG — Nei Machado, nos anos 1990, para contrabandear cocaína em tarros de leite, desde a Colômbia. A droga era lançada de aviões nas lavouras do Rio Grande do Sul, especialmente em granjas passo-fundenses, mas também na Fronteira e Litoral.

Preso diversas vezes no Brasil e no Paraguai, Nei Machado decidiu fugir e tentar a sorte na fonte da droga. Migrou para as selvas colombianas e começou um lucrativo negócio de troca de armas por cocaína. Acabou preso num acampamento da guerrilha comunista Farc, em 2001, junto com o mais conhecido traficante brasileiro, o carioca Fernandinho Beira-Mar. Sobrou para Paulo Seco a missão de continuar os repasses de drogas para o Brasil.

Foi condenado duas vezes em 2007 e uma em 2014, todas por tráfico ou associação para o tráfico. O problema é que ninguém conseguia prendê-lo. Até que, em 2010, foi capturado nas proximidades de um shopping em Carrasco, bairro chique de Montevidéu. Ele vivia há dois anos no Uruguai, com identidade falsa. Estava casado com uma paraguaia, com quem tem três filhos.

Transferido para o Brasil em 2013, ficou preso até 2016, quando ganhou liberdade condicional. Deveria estar trabalhando numa empresa no bairro Boqueirão, em Passo Fundo...Era o que constava na sua ficha judicial. Não estava. Desfrutava do conforto de uma mansão no Litoral. Foi em Tramandaí que os destinos dele e do capitão da PM se cruzaram.


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