História fora dos trilhos

Trenzinho da Tristeza, que circulou em Porto Alegre até os anos 1930, apodrece a céu aberto na Serra

Moradores da Zona Sul querem trazê-lo para a capital gaúcha

Por Bruna Vargas
18/04/2017 - 18h55min
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Foto: Geder Luis Gutler / Especial

Um pedaço da história de Porto Alegre se deteriora a cerca de cem quilômetros da Capital, em Carlos Barbosa. Levada há nove anos do Museu do Carvão, em Arroio dos Ratos, ao município da Serra, uma locomotiva a vapor que circulava na Zona Sul no começo do século 20 padece a céu aberto enquanto a ideia de trazê-la de volta à Praça Comendador Souza Gomes, conhecida como Pracinha da Tristeza, não sai do papel.

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O cenário é desanimador. Em um terreno próximo à plataforma de desembarque da Maria Fumaça que é atração turística do município serrano, exposto a diferentes intempéries, o que restou do trenzinho, atualmente, não passa de uma carcaça enferrujada. Não há nenhum tipo de proteção, cercamento, ou identificação do que é o maquinário estacionado no bairro Triângulo.

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Mais determinados no jogo de empurra de que viraram alvo os vagões históricos, moradores da zona sul da Capital acreditam que não há opção mais adequada do que o chamado Trenzinho da Tristeza voltar as suas origens. A ideia seria instalá-lo no local que já foi o fim da linha do trem, que circulou na capital até meados da década de 1930. Há dois anos, o Centro Comunitário de Desenvolvimento da Tristeza, Pedra Redonda, Vilas Conceição e Assunção (CDD) articula a volta do maquinário à Capital e seu tombamento pelo patrimônio histórico.

— Ele foi feito para levar esgoto, mas logo depois começou a levar passageiros. Como naquela época se desenvolveram os balneários da Zona Sul, ele acabou acelerando a urbanização dessa região. Essa é sua importância: ele foi um vetor do desenvolvimento da cidade — diz o arquiteto André Huyer, autor do livro A Ferrovia do Riacho, que conta a história do veículo.

A relevância histórica parece ser o único consenso entre os envolvidos. No ano passado, a prefeitura de Porto Alegre, por meio da Equipe de Patrimônio Histórico e Cultural (Epahc), redigiu um ofício ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan-RS) sinalizando que a locomotiva tinha valor histórico. Embora manifestasse interesse no retorno do maquinário a Porto Alegre, no entanto, o Epahc disse não ter recursos para transportar e restaurar a obra.

A prefeitura de Carlos Barbosa também não se opõe à volta do trem a Porto Alegre, mas nunca foi procurada para tratar do assunto, segundo o vice-prefeito Roberto Da-Fré. Em 2008, o município da Serra chegou a orçar o restauro dos vagões. Com custo estimado em pelo menos R$ 250 mil, a prefeitura descarta o investimento. Para o vice-prefeito, caso ficasse decidida a devolução dos vagões à Capital, a responsabilidade pelos custos de transporte caberia ao Iphan.

— Na verdade a gente nunca conversou sobre isso. Mas, assim, uma certeza que nós temos: esse patrimônio é do Iphan, portanto é o Iphan que é responsável pelo destino desse trem. Ele está lá, no tempo, está abandonado. O quanto antes alguém chegar e trabalhar com ele vai ser melhor — diz.

O impasse sobre o destino da locomotiva foi parar no Ministério Público Federal (MPF), que, em 2015, abriu inquérito civil para apurar a atuação do Iphan na conservação da locomotiva. Por e-mail, a assessoria de imprensa do MPF disse que o órgão "está trabalhando para que o bem retorne ao bairro Tristeza" e que o Iphan estaria celebrando um acordo com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) para viabilizar a destinação dos bens móveis oriundos da Rede Ferroviária Federal SA (RFFSA). Procurado, o Iphan relatou que só poderia passar informações sobre a locomotiva dentro de uma semana.

Caso o trem volte à Capital, ainda será preciso buscar recursos para sua restauração. Para o CDD, a questão financeira pode ser resolvida com leis de incentivo à cultura. Uma vez que a locomotiva esteja de volta, os moradores da Zona Sul planejam orçar e encaminhar um projeto de restauro para buscar a verba.

— É uma luta antiga da comunidade trazer o trenzinho de volta. Conversamos com gente que já tem essa expertise para tentar via lei de incentivo. Espero que o transporte se resolva em breve, para tentarmos captar recursos — diz a presidente do CDD, Jacqueline Custódio.

O chamado Trenzinho da Tristeza (que em Carlos Barbosa também ficou conhecido como Maria Fumaça) chegou à Capital no final do século 19, quando começou a ser utilizado para transportar o esgoto da Zona Sul até o Guaíba. Mais tarde, ele passou a realizar o transporte de passageiros entre a Ponte dos Açorianos e a Pedra Redonda. Em 1933, a locomotiva foi incorporada à Viação Férrea do Rio Grande do Sul, e em 1936 encerrou suas atividades. Na década de 1960, ela foi levada para o Parque Farroupilha, onde foi depredada, e passou ainda pelo Parque Sant'Hilaire e pelo Museu do Carvão, em Arroio dos Ratos, onde esteve até ser levada para Carlos Barbosa. 

Estação férrea da Pracinha da Tristeza por volta de 1920Foto: Reprodução / Reprodução


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