Porto Alegre

ONG gaúcha promove inclusão social de jovens por meio da música e é contemplada no Criança Esperança 

Sol Maior atende cerca de 400 crianças em situação de vulnerabilidade com aulas de canto coral, instrumentos e dança, além de reforço escolar

Por Cristiane Bazilio
15/07/2017 - 07h00min
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Na Acbergs, No Bairro Humaitá, uma das vertentes do projeto social, gurizada aprende e se diverte
Na Acbergs, No Bairro Humaitá, uma das vertentes do projeto social, gurizada aprende e se diverte Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS

No ano em que completa uma década de atividade em Porto Alegre, a ONG Sol Maior, que atende gratuitamente a cerca de 400 crianças entre 6 e 17 anos, de baixa renda e em situação de vulnerabilidade social, tem muitos motivos apara comemorar. Em especial, um feito que promete transformar ainda mais vidas através da música, do canto, da dança e da solidariedade. A ONG teve um projeto contemplado pelo Criança Esperança, da Unesco, que será apresentado para todo o Brasil no programa que vai ao ar no dia 19 de agosto, na RBS TV. 

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Com isso, receberá um aporte financeiro que custeará apresentações dos alunos das oficinas de canto coral e percussão em diferentes espaços sociais na Capital e no Interior. Até o final do ano, devem acontecer quatro apresentações fora de Porto Alegre, além de incursões mensais em escolas públicas, asilos e hospitais da cidade. 

— Isso vem para dar mais credibilidade ao nosso trabalho e coroar o empenho e a dedicação da equipe que acredita nessa proposta de transformação social, de um novo cidadão que nasce por meio da música — avalia o coordenador pedagógico da Sol Maior e idealizador do projeto aprovado, Daniel Portilho, que comemora: 

— Mostra que estamos no caminho certo, que estamos fazendo um trabalho transparente e de forte cunho social. E vai nos dar mais visibilidade e a oportunidade de expandir nosso trabalho. 

Ainda de acordo com Daniel, o segundo semestre será de apresentações voltadas para espaços que permitem a socialização entre os jovens do projeto e pessoas que também vivem em situação de vulnerabilidade. Não necessariamente crianças ou adolescentes:

— A partir de agosto, o grupo fará três apresentações em asilos de Porto Alegre, levando música, afeto e promovendo integração entre os jovens e os idosos. 

Missão nobre, espaço de luxo  

Aulas de violão nas salas do MultipalcoFoto: Robinson Estrásulas / Agencia RBS

A Sol Maior nasceu na Fundação O Pão dos Pobres, em 2007, e desde 2012 passou a contar com a parceria da Associação dos Amigos do Theatro São Pedro. De segunda a quinta-feira, cerca de 130 alunos têm aulas de violão, cavaquinho, flauta, percussão, canto coral e dança em um dos espaços mais nobres de Porto Alegre: as salas do Multipalco do Theatro São Pedro, no Centro da Capital. Na sexta, recebem reforço escolar nas disciplinas de inglês e matemática, uma demanda dos próprios alunos. Para isso, ganham passagem e lanche. 

— Observando a desigualdade social e a violência, decidimos implantar um projeto social que possa colaborar na solução desse problema. Nosso maior objetivo é formar cidadãos através da música e de bons valores — aponta de César Franarin, vice-presidente da Sol Maior. 

Segunda casa

Maria Luiza (de calça rosa) se solta ao som de Despacito, sua música e coreografia preferidaFoto: Robinson Estrásulas / Agencia RBS

As irmãs Maria Luiza Correa Ferreira, oito anos, e Larissa Correa Ferreira, 16, moradoras do Centro, não perdem um dia de aulas e elencam suas atividades preferidas.

— É muito bom vir pra cá. O que eu mais gosto é o coral e a dança — diz a tímida Maria Luiza, que se transforma ao pisar na pista e requebrar ao som do hit do momento, Despacito, eleita por ela como música e coreografia preferidas. 

Foi a mana mais velha, que está no projeto há cinco anos, quem abriu as portas para a caçula e hoje reconhece o poder transformador das aulas:

— Aqui é uma segunda casa, onde fazemos amizades, aprendemos e nos divertimos muito. A Malu era ainda mais tímida, e aqui se soltou, se abriu mais. Ela adora e está feliz.

As manas Malu e Larissa (D) vão juntas às atividades da Sol MaiorFoto: Robinson Estrásulas / Agencia RBS

Nalanda Vitória Teixeira, 14 anos, do Bairro Vila Nova, frequenta as aulas há quatro anos. Já passou pela dança, pelo coral e hoje se desafia nas aulas de violão: 

— Eu vivia da casa pro colégio, e ficava de tarde sem fazer nada. Quando comecei a vir pra cá, respirei novos ares, conheci gente nova, fiz amigos... Quando não venho, fico triste. 

Nalanda não falta por nadaFoto: Robinson Estrásulas / Agencia RBS

Imersão na comunidade

Habilidade no cavaquinho só aumenta entre os jovens Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS

Às sextas-feiras, os professores e monitores da ONG vão até a Vila Farrapos, no Bairro Humaitá, onde expandem o projeto para aproximadamente 280 jovens da Associação de Creches Beneficentes (Acbergs). Entre eles, estão as amigas inseparáveis Kauana Gabriela da Silva de Deus, 12 anos, e Joice Ferreira dos Santos, 13 anos, que arrasam pista de dança.

— Eu gostava de dançar, mas dançava pouco. Aqui, a gente aprende coreografias. As que eu mais gosto são de Cheguei, da Ludmilla, e o Despacito. Eu adoro — diz Kauana, que frequenta a Acbergs desde os seis anos. 

— A gente se conhece desde os três aninhos, e como a Kauana entrou, eu quis fazer também. Não saí mais porque em casa não tem nada pra fazer e aqui a gente mal vê o tempo passar. Já dança, parei, entrei no violão, na flauta e esse ano voltei pra dança — conta Joice, que graças às aulas, tira de letra instrumentos de corda e percussão. 

Joice (E) e Kauana: amizade dentro e fora das salas da Sol Maior Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS

Aos 15 anos, Eduardo Héber dos Reis Scheimer, do Bairro Humaitá destaca o acolhimento e a possibilidade de desenvolver habilidades como pontos fortes do projeto, e vai além:

— Fui muito bem recebido aqui. Sempre tive vontade de aprender violão, mas não tenho condições de pagar uma aula. Então agora me dedico a isso. Minha avaliação pra esse projeto é cinco estrelas (risos). Tem jovens que podiam estar na rua se drogando, planejando um crime, e aqui estão ocupados e fazendo algo de bom. 

Eduardo (E) sonhava em aprender violão, oportunidade que se abriu com o projeto socialFoto: Carlos Macedo / Agencia RBS

Oportunidade profissional 

Professor de cavaquinho,  Leonardo é exemplo de superação para a criançadaFoto: Carlos Macedo / Agencia RBS

Mais do que ensinar e divertir a gurizada, a ONG também oferece oportunidades de trabalho para aqueles que se destacam e que acabam virando monitores, com carteira assinada e remuneração em torno de 680 reais Foi o que aconteceu com Leonardo Duarte França Junior, 18 anos, da Agronomia, que trabalha com a Sol Maior há três anos, ensinando os alunos a tocar instrumentos de percussão. 

— Comecei lá no Pão dos Pobres, depois fiquei um tempo na rua até que o Daniel foi atrás de mim. Fiquei um ano fazendo violão e fui contratado como monitor — lembra Léo, que se identifica com tantos outros meninos que, como ele, buscam um norte na vida:

— Tento mostrar para os alunos que sou como eles, um menino da vila, comum, e que a música pode mostrar caminhos e abrir portas, que a gente pode se transformar, como aconteceu comigo. Cresci como pessoa, ganhei maturidade, mudei dentro de casa, ganhei responsabilidade. Se eu não tivesse na escola não sei onde eu estaria. 

Esthevam Levi Quadros da Silva, 20 anos, da Partenon, é um dos profes queridinhos das alunas por ministrar uma das aulas que mais bombam, tanto no Multipalco quanto na Vila Farrapos: a dança. É ele quem ouve, incansavelmente, durante toda a semana toda, repetidas vezes, o hit Despacito e se diverte:

— Elas só querem saber de dançar essa música (risos)!

Ele descreve, emocionado, o sentimento de gratidão pelo que já alcançou. 

— Era tudo que eu realmente queria, ter a experiência de saber o que um educador passa. Descobri que é muita emoção, responsabilidade e troca de carinho — diz Esthevam, que relata a mudança de vida pela qual passou depois de frequentar o projeto: 

— Passei a ser mais responsável e atento. Eu não era um cara muito legal no passado, tinha sede por briga, e hoje eu sou o homem da família. Chego em casa e minha mãe me olha como o homem da casa. Ela é guerreira, mas doente, não tem condições, e graças a esse emprego aqui eu ajudo em casa. 

Esthevam garante que teve a vida transformada pela nova oportunidade. Tempos de briga ficaram no passadoFoto: Carlos Macedo / Agencia RBS


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