Solidariedade

Conheça ações que tornam o inverno dos moradores de rua de Porto Alegre menos difícil 

Voluntários promovem doações de roupas e alimentos, por exemplo, durante esta época do ano 

Por Bárbara Müller
17/07/2017 - 17h34min
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Foto: Montagem / Divulgação / Divulgação

As cerca de 2 mil pessoas que têm as ruas de Porto Alegre como lar enfrentam noites geladas e chuvosas com poucos recursos para se proteger do frio. Se por um lado os dias de baixas temperaturas — como indica a meteorologia para esta semana — são um motivo de preocupação, por outro a solidariedade praticada no inverno torna a rotina um pouco menos difícil. Paralelamente a ações do poder público, pessoas e organizações arrecadam e doam de roupas a alimentos.

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— No início, ninguém ajudava. Para a sociedade, somos lixo. Mas tem muitas pessoas boas de coração e com coragem para chegar aqui. Tenho o maior respeito pela atitude delas — conta Jorge, 40 anos, que vive há mais de duas décadas na rua.

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Quase metade desse tempo sob o mesmo viaduto na Zona Norte, Jorge (cujo sobrenome não quis revelar) agrega ao espaço que divide com 11 cachorros e alguns amigos pedaços de madeira para fazer fogo e se esquentar no inverno. Ele afirma que o pior dos cenários é quanto, junto do frio, vem a chuva e os alagamentos.

— Antes (sem doações e com menos pertences), era muito pior. Eu deitava na calçada fria, só com uma coberta fina, e às vezes não tinha nem isso — relata.

A maior incidência de doenças respiratórias, como tuberculose, é outro reflexo do inverno. Em 2016, o programa de assistência Consultório na Rua, da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), fez o diagnóstico em 63 pessoas em situação de rua — 34% a mais do que no mesmo período de 2015.

— Percebemos um aumento nesses casos porque a pessoa fica exposta à friagem, em um ambiente insalubre, sem condições de se alimentar direito e sem um bom descanso — explica Cleiton Salvador, enfermeiro do Consultório na Rua.

De junho a setembro, o inverno faz com que a prefeitura inclua mais 90 vagas em dois albergues que atendem moradores de rua — nas outras estações, são 265 leitos que funcionam das 19h às 7h.

— O número de vagas aumenta nessa época porque a demanda aumenta. No resto do ano, muitos preferem dormir na rua porque lá (no abrigo) é preciso seguir regras como horário de entrada, de saída e de dormir— explica a diretora técnica da Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc), Vera Ponzio.

Uma das pessoas que promove ações em paralelo às políticas públicas é Aline Rodrigues. Há cinco anos participando do Sopão Solidário, ela afirma que a atividade não fica restrita à entrega de alimentos:

— Queremos conversar, dar atenção e tentar ajudar. Às vezes, dá vontade de pegar todo mundo e levar para casa. Posso contar nas mãos quando peguei alguém na droga. Eles não usam a quantidade de droga que o pessoal acha que eles consomem. O consumo mesmo é de cachaça, porque esquenta e enche a barriga.

Líder do Banho Solidário, Letícia Andrade diz que quem quiser ajudar pode contribuir como voluntário no dia em que os banhos são realizados ou com doações de produtos de higiene, lanches e roupas. Para isso, basta entrar em contato por meio da página do Facebook Banho Solidário Porto Alegre ou deixar as doações em dois pontos de coleta (leia mais abaixo).

— Temos mais de cem pessoas que participam do projeto. Muitas não atuam diretamente, mas ajudam a conseguir coisas como pasta e escova de dentes, aparelhos de barbear, cueca e meias. Nos dias dos banhos, pelo menos 12 pessoas ajudam — comenta.

Veja algumas iniciativas que acontecem pela Capital:

BANHO SOLIDÁRIO

Foto: Arquivo pessoal / Divulgação

Trata-se de um projeto liderado por Letícia Andrade. Ao saber de uma iniciativa que oferece banho gratuito a moradores de rua em Vitória da Conquista, na Bahia, ela olhou para a realidade dos moradores de rua do Bom Fim e percebeu que eles não tinham um lugar para fazer a higiene desde 2015. No inverno, a ação acontece uma vez por semana, a partir das 11h, sempre em um ponto diferente da área central. Em cima de um reboque, uma estrutura com dois chuveiros — um feminino e outro masculino — oferece água quentinha.

— A sensação que a gente tem é de alegria, de ver que eles se sentem melhores depois do banho, eles se sentem acolhidos — diz

A iniciativa atende, em média, 35 pessoas em cada ação — neste ano, mais de mil banhos foram realizados.

Quando: aos domingos, a partir das 11h

Onde: sempre em um ponto diferente da região central de Porto Alegre

Como ajudar: pela página Banho Solidário Porto Alegre, no Facebook, ou deixar as doações em dois pontos de coleta: no Piperita Sabores Selecionados (Rua General João Telles, 522, Bom Fim) e Podologia Moinhos (Rua 24 de Outubro, 591, Independência).

SOPÃO SOLIDÁRIO

Foto: Arquivo pessoal / Divulgação

Há cinco anos, pelo menos 12 pessoas preparam sopa de legumes e separam roupas que estão em boas condições para entregar a pessoas em situação de rua. A ação ocorre durante todo o inverno, de 15 em 15 dias, quando dezenas de voluntários circulam da Rua Getúlio Vargas até a Joaquim Nabuco.

— Conversar é um alento para eles, que são invisíveis aos olhos da sociedade. Às vezes tudo o que precisam é que alguém os perceba para que eles queiram mudar toda a vida deles — comenta Aline Rodrigues, uma das organizadoras do projeto mantido com a ajuda de doações.

A última ação ocorreu no domingo. Uma festa para comemorar os cinco anos do projeto e arrecadar doações está marcada para o dia 23, no Pátio Gastro (Rua Múcio Teixeira, 724, no Menino Deus), a partir do meio-dia.

Quando: de 15 em 15 dias.

Onde: entre a Rua Getúlio Vargas e Joaquim Nabuco

Como ajudar: por meio da página Sopão Solidário, no Facebook

GUARDIÕES DA SOLIDARIEDADE

O projeto surgiu em maio de 2016, após Graziela de Alves, uma das coordenadoras, perder a casa em uma enchente. A cada duas semanas, ela, duas amigas e mais um grupo de voluntários oferecem um prato de comida às pessoas que vivem no viaduto Otávio Rocha, na Avenida Borges de Medeiros, no centro de Porto Alegre. A refeição varia de acordo com os ingredientes que são arrecadados: já saiu sopa, feijão e massa com salsicha. Na ocasião, roupas e cobertas também são entregues.

Foto: Arquivo pessoal / Divulgação

— Quando perdi tudo, um estranho me ajudou. E, com isso, percebi que eu também poderia contribuir e ajudar outra pessoa também. Não medimos esforços para conseguir as doações — relata Graziela.

Quando: a cada duas semanas

Onde: viaduto Otávio Rocha, na Avenida Borges de Medeiros, no Centro

Como ajudar: por meio do grupo Guardiões da Solidariedade, no Facebook

ANJAS DE BATOM

Foto: Arquivo pessoal / Divulgação

Com potinhos térmicos, cerca de 15 pessoas distribuem sopa para cem moradores de rua que ficam pela região da Praça da Alfândega, no Centro Histórico. Desde dezembro, o grupo promove a atividade pelo menos uma vez por mês com a ajuda de doações. Assim como em outros projetos sociais, a ideia é dar um pouco de atenção e afeto para aqueles que passam despercebidos no meio da correria.

— É uma realização, uma chance de estar perto e ouvir um pouco do próximo, entender o que ele está passando. Vamos juntando um pouquinho de cada coisa (para a ação) e isso gera um resultado muito bom — conta Vanessa Silveira, idealizadora do projeto.

Quando: uma vez por mês

Onde: Praça da Alfândega, no Centro Histórico

Como ajudar: por meio da página Anjas de Batons, no Facebook

COZINHEIROS DO BEM

Foto: Arquivo pessoal / Divulgação

Um cardápio completo, com arroz, macarrão, feijão, salada, farofa, pão, suco e sobremesa é oferecido a pessoas em situação de rua desde 2015. Aproximadamente 1,4 tonelada de alimentos são distribuídos por final de semana, a partir das 10h30min — em datas comemorativas a quantidade dobra — em três locais: viaduto da Conceição (Centro Histórico), viaduto do Obirici (Zona Norte) e viaduto Dom Pedro I (Praia de Belas). O grupo, formado por cerca de 300 voluntários, conta com todos os tipos de doações, de pacotes de arroz a copos descartáveis.

— Deixei tudo de lado, vendi o meu restaurante, vendi tudo para tocar o projeto. A gente luta contra a máquina, acabamos fazendo um serviço que seria do governo, mas com trabalho de formiguinha, juntando um pouco de cada um, conseguimos atingir o máximo de pessoas possível — conta Júlio Ritta, idealizador do projeto, que produz molhos artesanais para vender.

Quando: todo sábado e domingo, a partir das 10h30min

Onde: viaduto da Conceição (Centro Histórico), viaduto do Obirici (Zona Norte) e viaduto Dom Pedro I (Praia de Belas)

Como ajudar: por meio da página Cozinheiros do Bem, no Facebook

NO CAMINHO DO BEM

Criado no dia 5, um site mapeia ações voltadas para moradores de rua. A ideia, de acordo com a coordenadora do Minha Porto Alegre e idealizadora do site, Clara Alencastro, é oferecer informações de iniciativas que já existem para quem tem interesse em ajudar e não sabe como começar. Os interessados preenchem um cadastro e escolhem qual projeto querem auxiliar. Além disso, a proposta é oferecer um serviço para as pessoas que vivem na rua e encaminhá-las aos serviços mapeados.

—Todo mundo faz parte da sociedade, e essas pessoas precisam ser assistidas e escutadas — explica Clara.

Todas as informações podem ser consultadas em https://www.nocaminhodobem.minhaportoalegre.org.br/

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