Pedro Juan Gutiérrez tem novela ¿O Rei de Havana¿ relançada pela Alfaguara, selo da Companhia das Letras
Mundo Livro

Clássico do escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez, "O Rei de Havana" ganha reedição no Brasil 

Livro narra a vida de personagem que vive à margem da sociedade cubana e busca redenção pelo sexo

Por Alexandre Lucchese 17/02/2017 - 08h00min · Atualizada em 17/02/2017 12h19min
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No ano passado, tive oportunidade de entrevistar a escritora cubana Teresa Cárdenas, que lançava na Feira do Livro de Porto Alegre a novela Cachorro Velho. De bata, turbante e sorriso largo, respondia a tudo com simpatia, mesmo quando as questões não abordavam diretamente seu livro. Não segurei a curiosidade e, antes de me despedir, perguntei a ela sobre Pedro Juan Gutiérrez. Sempre ouvi falar que, apesar de ser conhecido internacionalmente, o autor de Trilogia Suja de Havana era ignorado como escritor em sua terra natal.

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– Não, Pedro Juan é muito lido em Cuba, muitíssimo – interrompeu-me Teresa. Depois de olhar discretamente para os dois lados, como quem tem receio de ser vigiado, emendou em tom mais baixo: – Quem não gosta dele é o governo. Consegui uma vez um livro de Pedro Juan emprestado. Veio sem capa, oculto em um envelope.

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Pedro Juan Gutiérrez, 67 anos, é um dos poucos escritores que ainda carrega certo ar maldito e proibido, pelo menos em seu país de origem. Rejeitado pelo regime cubano, não consegue editar seus livros em sua terra, ou os vê saírem com tiragens muito pequenas. É em discretas edições piratas que seus compatriotas o leem.

No Brasil, ler Gutiérrez é muito mais simples. Editado pela Companhia das Letras, o escritor teve seu livro mais recente, Fabián e o Caos, lançado aqui em julho do ano passado. Esta semana, está voltando às livrarias sua obra máxima, O Rei de Havana, escrita em 1998 e lançada aqui em 2001. É nesta novela, com menos de 200 páginas, que se pode conhecer a literatura de Gutiérrez em todo seu brilho e intensidade.

O livro narra a história de Reinaldo, menino que perde a família de uma hora para a outra de modo insólito e é enviado para um reformatório de menores. Ao sair da instituição, sem dinheiro e sem ninguém que o protegesse, aprende a sobreviver à base de violência e sexo.

A crueza do texto de Pedro Juan já foi encarada como falta de estilo, mas não é bem assim. Apesar do tom realista, trata-se de um texto marcado por excessos – de rum, de sexo, de maconha e de fome. Reinaldo está sempre a um fio da morte, ou pela pobreza absoluta ou pela compulsão de gozar com quem encontrar pela frente. É essa tensão, muito bem tramada pelo autor, que faz de O Rei de Havana um livro difícil de largar.

A novela é um retrato de Havana desenhado a partir dos subterrâneos do vício e do crime, mas esta é apenas sua camada mais visível e superficial. É um livro com chances de sobreviver ao tempo – em Cuba ou em qualquer outro país – por mergulhar com radicalidade na mente de um jovem reduzido ao instinto animal. 

O Rei de Havana
De Pedro Juan Gutiérrez
Romance, Alfaguara, 184 páginas, R$ 39,90
Cotação: 5 de 5 estrelas

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