Opinião

Celso Loureiro Chaves: Zero a zero

Colunista escreve sobre os problemas enfrentados pelas orquestras gaúchas

Por Celso Loureiro Chaves 20/03/2017 - 05h00min · Atualizada em 20/03/2017 05h00min
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Em tempos de dureza, voltar a temas já repassados é quase um mantra para o cronista. A Ospa vagando sem casa, por exemplo. Mas é que uma pequena luz se acendeu: a sala de ensaios inaugurada há pouco. Sala de ensaios não é sala de concertos, que se entenda logo, mas já é alguma coisa. As consequências são imediatas. A orquestra se acostuma com os novos ares de um só lugar, os músicos deixam de lado a peregrinação, os instrumentos – especialmente os mais intratáveis em forma e tamanho – lucram com a diminuição dos deslocamentos.

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Uma sala de ensaios garante qualidade ao trabalho de qualquer orquestra: todos conseguem ouvir uns aos outros, a coesão de sonoridade é atingida com mais eficiência, e daí aos ganhos nos concertos é um pulo. Cuidado, no entanto. Que não se pense em transformar a sala de ensaios em sala de concertos. Uma coisa não é a outra e, pior, na fixidez do transitório que caracteriza certas coisas brasileiras, corre-se aí o risco de não ver nunca mais a sala de concertos da Ospa sonhada e ansiada.

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Não é só o transitório que se petrifica na cultura rio-grandense: já é quase uma tradição gaúcha dar um passo à frente e outro atrás, como se não se pudesse seguir só em frente. Estamos sempre no zero a zero. Agora mesmo, abre-se uma sala de ensaios e fecha-se uma orquestra. Dessa vez foi a Orquestra Filarmônica do uma vez chamado Centro de Cultura Musical. Esse centro e essa orquestra foram o sonho e a realização do Maestro Frederico Gerling Júnior, que com a sua vasta cabeleira regeu muitos concertos que todos vimos e, obstinado como era, conseguiu fazer ópera em Porto Alegre.

Hoje o que acaba é esta orquestra. Uma vez, quando uma orquestra dessas chegou ao fim, observei que eram o sonho e as realizações de José Pedro Boéssio que terminavam. Esse mesmo Zé Pedro que hoje é nome de rua lá perto da Arena. Quem ainda perceberá que seria infinitamente melhor ter o sonho vivo ao invés da rua e seus transportes? No Rio Grande do Sul é fácil enterrar sonhos e desprezar legados em nome de novas eficiências. Fundações, escolas de samba, filarmônicas – tudo parece estar sempre pronto para ser esquecido.

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