Intervenção

Nick Rands pinta paredes de galeria na Capital com barro proveniente de mais de 80 localidades no RS

Trabalho de artista britânico pode ser visto até 29 de abril, no Espaço Cultural ESPM-Sul

Por Luiza Piffero 20/03/2017 - 18h49min · Atualizada em 21/03/2017 17h35min
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Artista britânico Nick Rands trabalhou durante cinco dias, aplicando o barro na parede com a mãoFoto: Divulgação / ESPM-Sul

Para muitos pintores, cada pincelada em um quadro é uma nova decisão. Nick Rands prefere tomar todas as decisões sobre um trabalho antes de começá-lo. Por isso, cria sistemas de regras que depois só precisa seguir. Assim constrói obras de arte que escondem uma trama de muitos cálculos, como a intervenção Horizontes Terrestres, feita nas paredes do Espaço Cultural ESPM-Sul. 

Durante cinco dias, Rands cumpriu expedientes de oito horas pintando faixas multicoloridas de barro nas paredes da galeria. Somadas, as faixas atingem 50 metros de comprimento. A obra exibe vários tons e texturas porque utiliza barro recolhido em mais de 80 lugares diferentes durante uma viagem empreendida por Rands em 2011. Para estabelecer o roteiro e os pontos de coleta da terra, o artista desenhou um quadrado sobre o mapa do Rio Grande do Sul e depois percorreu suas linhas. Desde então, as amostras deram origem a diferentes trabalhos, sendo o primeiro deles o projeto Cadernos de Viagem da 8º Bienal do Mercosul, em 2011. 

– Por enquanto, estou achando que esse é o melhor trabalho. Fiz em função do espaço, que é muito interessante, com curvas e um cilindro no centro – relata Rands.

Em "Horizontes Terrestres", cores e texturas do barro são exploradas pelo artista Foto: Gabriela Hagemann / Divulgação ESPM-Sul

Em Horizontes Terrestres, o material antigo é aplicado segundo um novo sistema. Rands pintou com a mão, na altura do seu olhar, e o tamanho da área pintada com cada terra foi determinado pela distância entre os locais onde as amostras foram coletadas. Após espalhar o barro na parede, fez um risco com uma vareta e o preencheu com outra cor de barro – coletado em uma das extremidades do quadrado.

– É tudo cálculo. Fiz muitos testes porque, trabalhando direto na parede, com prazo, é preciso saber antes quanto tempo vai levar. Fiz três ou quatro versões de teste na minha casa. Se eu errasse, teria que lavar a parede e começar tudo de novo.

Diante das cores e texturas, é difícil não imaginar os vários locais de origem daquelas terras. Mas Rands não divulga os endereços correspondentes. Nesta obra, o barro é tinta.

– O lugar de onde vem a terra não tem muita importância. É a matéria, a textura, a cor, até o cheiro quando tu molhas... Depois da chuva, há um perfume que sai do barro – diz Nick, que se impressiona com as diferenças entre cada amostra: – Tu tentas imitar uma cor e não tem como.

Barro é usado como tinta pelo artista, que não o mistura com nenhum outro materialFoto: Gabriela Hagemann / Divulgação ESPM-Sul

O barro é a matéria-prima de muitas pinturas, esculturas e instalações de Rands. O próprio artista relaciona Horizontes Terrestres com Eye Levels (2000), em que carimbou suas digitais com lama em uma linha contínua nas paredes da Galeria Iberê Camargo, na Usina do Gasômetro. O artista incorporou o material em suas obras depois de uma experiência como professor em Botsuana, no sul da África, onde observou a proximidade das pessoas com a terra e viu como a lama dos leitos de rios era usada para construir casas e utensílios domésticos. No texto A Criação de Territórios nas Pinturas de Nick Rands (2001), a crítica Icleia Borsa Cattani escreve que as amostras de barro identificam espaços atravessados tal como "recordações de viagens com os quais o artista realiza, às vezes, inclusive, espécies de 'diários'". 

A viagem não faz apenas parte do processo criativo de Rands como está entranhada no seu cotidiano. Nascido na Inglaterra, ele se divide entre a França, Porto Alegre e Garibaldi. Desde 1998, passa temporadas na capital gaúcha, onde viveu com a mulher, a artista plástica gaúcha Maria Lucia Cattani (1958 – 2015).

Veja galeria de fotos da intervenção:

Horizontes Terrestres
De Nick Rands
Até 29 de abril, no Espaço Cultural ESPM-Sul (Rua Guilherme Schell, 268). Visitação de segunda a sexta-feira, das 8h às 22h, e sábado, das 9h às 15h.

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