Adam Driver e Golshifteh Farahani são os protagonistas
Cinema

"Paterson", de Jim Jarmusch, mostra poesia além do cotidiano banal

Uma das sensações do Festival de Cannes de 2016, longa estreia no Brasil

Por Daniel Feix 20/04/2017 - 14h00min · Atualizada em 20/04/2017 14h00min
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Autor de dramas existenciais recheados com um humor ao mesmo tempo singelo e erudito, Jim Jarmusch é um dos cineastas mais cultuados da geração que transformou o cinema independente norte-americano em fonte de algumas das maiores preciosidades produzidas entre as décadas de 1970 e 1990. Depois de quase 10 anos de ausência no circuito brasileiro, ele voltou com tudo no muito bom Amantes Eternos (2013), que está disponível na Netflix, e no melhor ainda Paterson, que foi uma das sensações do Festival de Cannes de 2016 e que estreia nesta semana nas salas do país.

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Diferentemente do longa anterior – e de grande parte de sua obra pregressa –, Patersoné um filme solar, que brinca com dualidades envolvendo o cotidiano mais comezinho e os sonhos mais transcendentais. Narra a história de um pacato motorista de ônibus (Adam Driver) que se distrai escrevendo poesias, cuja inspiração provém daquilo que observa no seu dia a dia. Ele se chama Paterson e vive em Paterson, New Jersey. Esse jogo de espelhos entre a sua identidade e a do lugar em que vive – e ao qual pertence – pode causar um estranhamento inicial, mas funciona como súmula das intenções de Jarmusch.

Todos os dias, Paterson, o homem, acorda, toma café da manhã, vai ao trabalho. Cumprimenta um colega e dá a partida no coletivo que dirigirá pelas próximas horas. No intervalo, vai a um parque observar uma queda d¿água. De volta para casa, desfruta do jantar preparado por sua doce e ingênua mulher (Golshifteh Farahani), depois sai para passear com o cachorro, entra em um bar, sempre o mesmo, bebe uma cerveja e conversa com os amigos – também os mesmos, sempre. Entre a prisão e o conforto dessa rotina que raramente se altera, há os momentos dedicados à escrita, que ganham solenidade na narrativa devido ao uso da música incidental (composta pelo diretor junto ao seu parceiro Carter Logan) e a um recurso bastante utilizado quando se trata de valorizar a palavra – os versos grafados sobre a tela, tal qual o que se viu em O Livro de Cabeceira (de Peter Greenaway, 1996), entre outros filmes.

Os textos são na verdade de Ron Padgett. Pagam tributo à poesia de William Carlos Williams (1883 – 1963), um dos ídolos de Jarmusch – outro é William Blake, referenciado em Dead Man (1995), um dos longas do diretor dos quais Paterson, o filme, mais se aproxima. São poemas aparentemente simples, mas que, ao revelarem sua conexão com o real, evidenciam uma pulsação nem sempre perceptível à primeira vista. Não deixa de ser uma provocação do grande realizador responsável por Estranhos no Paraíso (1984), Down by Law (1986) e Ghost Dog (1999), entre outros títulos inesquecíveis. É como se perguntasse: o que exatamente você vê ao observar certas rotinas tidas como banais?

Para deixar tudo ainda mais instigante, Jarmusch escalou um casal de atores jovens "preso" a um cotidiano perfeitamente identificável como ultrapassado: a mulher do motorista não trabalha e o espera em casa, todas as noites, com o jantar preparado; distrai-se no dia a dia fazendo cortinas e outros utensílios domésticos; tem ambições de ser reconhecida socialmente vendendo cupcakes, mas também pensa em se lançar na música (tocando o violão que ganhou de presente do marido "que trabalha fora"). Nada, incluindo essa configuração familiar, se estabelece por acaso em Paterson.

São também os casos de alguns personagens secundários, a exemplo do japonês vivido por Masatoshi Nagase. O ator, que interpretara o forasteiro em busca de Elvis Presley em Trem Mistério (1989), também de Jarmusch, agora está à procura de se conectar com William Carlos Williams. Trata-se de alguém "de fora", mas sua presença, já no ato final, serve como o próprio espelho para o qual Paterson, o protagonista, olha-se buscando se reconectar com o que realmente importa.

É nesse jogo, entre o que está na superfície e o que se esconde por trás das aparências, entre o que se vê e o que a realidade mais banal não parece mostrar, que se configura Paterson. Parece simples, mas é um filme de uma riqueza absolutamente incomum.

PATERSON
De Jim Jarmusch
Comédia dramática, EUA, 2016, 118min.
Em Porto Alegre, em cartaz no Guion Center e no Espaço Itaú.
Cotação: ótimo.

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