12/9/1981: No Rio de Janeiro, multidão vaia a vitória de Lucinha Lins no festival MPB Shell, com Purpurina, canção do gaúcho Jerônimo Jardim (sentado)
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Cinco vaias históricas: músicos gaúchos relembram shows marcados pela rejeição do público 

Ruidosa desaprovação a artistas como Jerônimo Jardim e Vitor Ramil não se limitou aos apupos: em mais de um caso, houve arremesso de latinhas e garrafas ao palco

Por Alexandre Lucchese e Fábio Prikladnicki 21/04/2017 - 09h00min · Atualizada em 21/04/2017 09h00min
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Caetano Veloso foi, Elis Regina também. Tom Jobim, Jorge Ben Jor e até Roberto Carlos, todos foram. Era difícil ser uma estrela em ascensão da música brasileira sem ser vaiada na era dos festivais, que coincidiu com os tempos de céu nublado da ditadura militar. Embora a vaia, em sua longa e famigerada história, tenha servido a diferentes propósitos, nos anos de chumbo materializou um fenômeno específico: o protesto do público dos festivais, majoritariamente universitário, contra canções consideradas alienadas da realidade do país. Sempre velada para não atrair a tesoura da censura, a crítica política presente nas letras das favoritas da plateia proporcionava raros momentos de liberdade de expressão.

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— Ninguém poderia impedir uma vaia — afirma o jornalista Zuza Homem de Mello, autor de livros sobre MPB. — A vaia era a manifestação contundente da classe universitária contra a ditadura militar.

Mas não foi exatamente político o estrepitoso apupo que a cantora Lucinha Lins e o compositor Jerônimo Jardim receberam pela canção Purpurina na final do festival MPB Shell, no dia 12 de setembro de 1981, frente a um Maracanãzinho lotado de estimadas 20 mil pessoas — certamente apoiadas pelos milhões de telespectadores que assistiam à transmissão pela Rede Globo. Zuza observa que o público do MPB Shell, realizado nos estertores da ditadura, era diferente daquele que havia prestigiado os festivais da era de ouro encerrada em 1972:

— Já não eram mais universitários, com opinião política. Estavam mais ligados ao que se ouvia nas emissoras de rádio cariocas. Então, era natural que gostassem mais do mundo dos hits.

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E não havia dúvida de que o hit daquele ano era Planeta Água, de Guilherme Arantes, cantor e compositor que vivia grande fase. Aprendendo a Jogar havia sido gravada por Elis Regina um ano antes, Deixa Chover emplacou na trilha da novela Baila Comigo (1981) e Planeta Água— uma apoteótica canção de quase seis minutos com refrão para cantar em coro — estava estourada nas rádios. Qualquer outra música seria vaiada. Quis o júri que o fardo coubesse a Purpurina, uma balada intimista de um compositor considerado independente.

Jerônimo Jardim havia largado tudo em Porto Alegre, incluindo um trabalho bem remunerado na publicidade, para construir carreira nacional no Rio, depois que Elis gravou Moda de Sangue, dele e de Ivaldo Roque. Frustrado por não ter conseguido ser produzido por Elis, encontrou amparo no então casal Ivan e Lucinha Lins, seus vizinhos no Leblon. A pedido de Lucinha, Jardim criou Purpurina de cabeça, sentado em uma praça, apenas com um bloquinho e um lápis comprados nas redondezas. Hoje, aos 72 anos, ele lembra da surpresa ao saber da seleção para o MPB Shell:

— Eu tinha inscrito outra, Portal, que havia ganhado um festival no Sul. Quando anunciaram Purpurina como uma das classificadas, estranhei. O Ivan me disse: "Inscrevi sua música, você não gostou?".

Lucinha relata que a canção havia sido bem recebida durante o festival, o que motivou os músicos, humildes, a cogitarem até beliscar um pódio — no terceiro lugar. Pensaram que fosse brincadeira quando souberam do resultado nos bastidores, pouco antes do anúncio ao público. A vitória, segundo Lucinha, foi uma "grande zebra":

— Havia uma torcida linda por Purpurina, mas todos tínhamos a consciência de que não era música para ganhar o festival, por sua delicadeza. A eleita do público naquele momento era Planeta Água.

A frustração da multidão começou assim que Arantes foi anunciado como o segundo lugar. Durante a execução, Planeta Água contou com um coro gigantesco. Depois, o tempo fechou. Reconhecida como a grande vencedora, Lucinha foi vaiada por 10 minutos, durante os quais foi impiedosamente xingada de palavras das quais recorda ainda hoje. Jardim subiu ao palco para apoiá-la e sofreu um corte no rosto de um dos abanadores no formato do logotipo da Shell arremessados da plateia. Até Guilherme Arantes voltou à cena para dar um beijo na cantora, por sugestão de um dos organizadores do evento, o que não alterou a situação. O barulho foi tanto que Lucinha sequer conseguiu escutar a própria voz durante a reapresentação que deveria ser consagradora para Purpurina. Irreconhecível, o canto saiu desengonçado e desafinado.

— Aconteceu uma verdadeira catarse dentro do Maracanãzinho — lembra Lucinha, que no dia seguinte recebeu flores e telefonemas de solidariedade. — Não deu para entender tudo naquele momento. Fui chorar apenas dois ou três dias depois, quando a ficha caiu. Tinha dificuldade para dormir porque havia um som dentro da minha cabeça, uma espécie de zumbido, os olhos arregalados.

Guilherme Arantes, que ficou "visivelmente irritado e frustrado" com o segundo lugar, conforme o registro de Zero Hora na época, lembra hoje do resultado como uma surpresa, assim como outras tantas testemunhadas em festivais:

— Eu sabia que era assim, pois já tinha familiaridade com festivais desde o tempo da Record e do antigo Festival Internacional da Canção. Muitas vezes, o óbvio não dá audiência da forma que a televisão e os patrocinadores esperam. A polêmica dá muito mais. Assim, a vaia se tornou um componente que começou a ser incentivado.

O compositor e cantor elogia Purpurina, que considera uma canção "muito bem composta", mas admite que esperava ganhar com Planeta Água:

— Para ser franco, acho que era a mais bonita como construção melódica. A letra fala de um elemento espiritual do Brasil, que é um país regido pela água.

Sem se referir especificamente à edição de 1981, Zuza Homem de Mello chama a atenção para o fato de o júri de 150 pessoas do MPB Shell ter exibido um perfil heterogêneo, incluindo especialistas em música e celebridades que não necessariamente dispunham de conhecimento técnico:

— Os resultados obtidos nos festivais MPB Shell podem ser discutidos porque partiram de um júri que era um conglomerado de personalidades com alguns elementos da área da música.

Três décadas depois, Lucinha e Jerônimo se reencontraram para celebrar a parceria. Apesar das vaias, a vitória lhes fez bem muito bem, obrigado. Lucinha lançou em 1982 o disco Sempre, Sempre Mais (que incluía Purpurina) e despontou como atriz de televisão e cinema. Jardim ficou mais um tempo no Rio e depois retornou à capital gaúcha. Com trajetória consolidada, reclama hoje da falta de reconhecimento aos compositores locais. No dia 17 de outubro de 2012, no Theatro São Pedro de Porto Alegre, os dois reinterpretaram a canção que havia despertado tantos sentimentos misturados, mas desta vez havia apenas alegria e talvez um pouco de saudade. Lucinha:

— Pensei: "Meu Deus, já faz 30 anos! Essa mulher cresceu, envelheceu, amadureceu. Como seria cantar Purpurina então, depois de tudo que aconteceu?". Fizemos como se fosse um blues, muito sensual, o maior barato. Foi especial.

Vitor Ramil já foi enxovalhado

14/12/1980: Vitor Ramil recebe apuros na Califórnia da Canção ao apresentar Semeadura, milonga que viraria um hinoFoto: Tude Munhoz / Agencia RBS

Na música regional gaúcha, mais ou menos à mesma época do MPB Shell, vivia-se um embate entre conservadores e vanguardistas. Ainda em 1974, uma polêmica havia sido instaurada em torno da milonga Coto de Vela, de Jardim e Ivaldo Roque, que já subvertia o protocolo tradicionalista com "acordes originais" e "harmonia menos linear que as outras concorrentes", segundo Zero Hora da época. Para acomodar as correntes em conflito, a comissão organizadora da Califórnia criou, na edição seguinte, três categorias de premiação: Campeira (para os mais tradicionais), Manifestação Rio-Grandense e Projeção Folclórica (designação que depois foi alternada com Manifestação Livre), embora a diferença entres estas duas últimas nem sempre estivesse muito clara.

— As definições sobre as linhas eram discutíveis — diz o poeta e músico Álvaro Santi, autor de estudos sobre a Califórnia. — Não havia elementos técnicos, musicais e poéticos que estabelecessem claramente o que é e o que não é. Se um musicólogo australiano lesse o regulamento, não saberia distinguir.

De qualquer forma, o problema não foi resolvido porque os vencedores das três linhas continuavam disputando a Calhandra de Ouro, troféu principal. Foi na linha de Projeção Folclórica que Vitor Ramil ouviu uma inesquecível vaia ao interpretar Semeadura, dele e de José Fogaça, em 1980. Naquele ano, a Calhandra ficou com Veterano (Antonio Augusto Ferreira/Ewerton Ferreira), com Leopoldo Rassier e Os Serranos, um clássico imediato.

— Fomos surpreendidos pela vaia ao subir ao palco — recorda Ramil. — Eu, pelo menos, não esperava por ela. E durou muito. Pareceu uma eternidade. A vaia aumentou quando uma espécie de pala de seda que eu usava, com as cores da bandeira do Rio Grande do Sul, caiu dos meus ombros, e eu afastei com um pé. Entenderam que eu estava pisando na bandeira.

Ramil entende que Semeadura não levou a Calhandra do júri por critérios artísticos, pois as concorrentes eram "grandes canções". Da parte do público, segundo ele, a vaia foi motivada por uma combinação de conservadorismo musical e político:

— Não poderíamos ser classificados como vanguardistas, mas é certo que, das roupas aos instrumentos usados no arranjo, não combinávamos muito com o perfil mais tradicional do festival. Ao mesmo tempo, o Fogaça, autor da letra, era um político identificado com a esquerda, e a letra falava em "repartir o campo e o mar". Tudo numa cidade do Interior, numa zona de latifúndios, numa época em que a ditadura ainda dava as cartas.

Um dos presentes na Califórnia de 1980, o músico e colunista de Zero Hora Vinícius Brum acredita que o público tenha vaiado "muito mais a cena do que a canção". Afinal, estava no palco um artista que não seguia cartilhas e mostrava-se mais interessado em reinventar a música do Sul por meio de um itinerário singular. O elemento político da letra tampouco deve ser ignorado, observa Brum:

— A cena foi o que ensejou a vaia de forma mais imediata, mas naturalmente há questões ideológicas por trás. É uma letra de contestação, que aponta para um futuro no qual o status quo das oligarquias pudesse ser derrubado na América. Falava em "guitarra y canto libre" no momento em que terminava o período mais férreo da ditadura. Devemos lembrar que Uruguaiana é uma cidade de fronteira, de grandes propriedades naquela época.

Mas a milonga logo se tornou um hino, e não demorou muito. Kleiton & Kledir, irmãos de Vitor, lançaram uma versão em 1981 e outra em 1984, em espanhol (Siembra), com a cantora argentina Mercedes Sosa, uma das mais belas e potentes vozes de protesto contra as ditaduras na América Latina. Que por sua vez lançou uma interpretação solo no disco Será Posible el Sur?, também daquele ano, que teve ainda — ufa! — uma regravação de Vitor para o disco A Paixão de V Segundo Ele Próprio, diferente da que estava no álbum da Califórnia. Naquele mesmo ano de 1984, Mercedes fez um show histórico no 2º Musicanto de Santa Rosa, ocasião em que Siembra foi acompanhada em coro pelo público, sob chuva.

Torcida contra a Tropicália

9/7/1969: A banda Succo leva bolhas de sabão e talco para o palco do festival universitário em Porto Alegre. Era o apogeu do TropicalismoFoto: Renato / Agencia RBS

Em uma noite de julho de 1969, o brigadiano Roberto Nascimento escoltou até o palco do Salão de Atos da UFRGS uma menina que usava um cinto de castidade e um homem vestido de imperador romano. Fã de cantores populares como Agnaldo Timóteo e Altemar Dutra, Nascimento foi repentinamente destacado para atuar em um dos mais provocativos e inovadores festivais de Porto Alegre. Com figurinos exóticos e musicalidade fora do tradicional, o 2º Festival Universitário da Música Popular Brasileira (FUMPB) ficou marcado como o apogeu do tropicalismo na Capital — e também como um dos mais contestadores eventos da cidade.

Os soldados do 6º Batalhão da Brigada Militar que garantiam a segurança da terceira eliminatória do FUMPB, em 11 de julho de 1969, foram convocados após a fatídica segunda noite da competição. Três dias antes, a tensão entre os músicos extrapolou o campo artístico. O compositor Geraldo Flach (1945-2011) foi parar no Hospital de Pronto Socorro, depois de levar um golpe de contrabaixo na cabeça. Logo depois da agressão, teve início uma sequência de vaias e aplausos que marcou o mais polarizado dos festivais da capital gaúcha.

A confusão teria se iniciado pouco antes de subir ao palco a banda Succo, então formada por Eliana Donatelli (vocal), Cláudio Vera Cruz (guitarra), Moka Lucena (guitarra), Flávio Chaminé (baixo), Renato Português (também no baixo), Mutuca Weyrauch (percussão) e João Manoel Blattner (bateria). Segundo Mutuca, a desavença começou por causa dos trajes de Chaminé (morto em 2004), vestido com uma ceroula e um penico na cabeça:

— Era um cansaço com aquela coisa hippie, mas o punk ainda não existia.

Para Mutuca, Chaminé respondeu de maneira desrespeitosa a alguém que falou mal de seus trajes nos bastidores, e uma discussão começou. Foi então que Geraldo Flach entrou na briga.

— Geraldo se botou no Chaminé. Formou aquele bolo. Quando estava todo mundo segurando o Geraldo, nosso outro baixista veio e deu com o baixo na cabeça dele. O cara desmaiou na hora. Nossa vocalista começou a chorar. Foi um rolo — lembra Mutuca.

Mas uma confusão maior ainda estava para começar. Inspirado nos happenings dos hippies americanos, Mutuca levou para o palco material para fazer bolhas de sabão e um saco de talco industrial para aspergir sobre seus músicos. Irritado com a situação que protagonizara momentos antes, Português teria chutado o saco de talco para o fosso da orquestra, onde os músicos da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa) acompanhavam os arranjos. Uma nuvem de poeira desceu sobre os instrumentistas, deixando todos atônitos.

— Talco é algo extremamente danoso para instrumento de cordas. Isso bagunçou completamente o festival, criou uma situação bastante constrangedora — relembra o radialista Vanderlei Cunha, jurado do FUMPB.

A nuvem de talco gerou vaias e aplausos do público. O ato não havia sido ensaiado — Mutuca assegura que o talco era apenas para soprar no ar e sobre os músicos da própria banda. Até a reportagem de ZH ligar para Vanderelei Cunha recentemente, quase 48 anos depois do ocorrido, o jurado tinha certeza de que tudo havia sido intencional.

— Foi uma ação performática, uma atitude para causar impacto e chamar atenção. Era uma maneira de manifestar inconformismo, um protesto por meio do comportamento — diz Cunha.

A terceira eliminatória do FUMPB, a primeira a contar com a Brigada Militar nos bastidores, e a grande final seguiram com ânimos exaltados na plateia. De um lado, estavam os defensores das toadas e canções influenciadas por ícones como Sidney Miller e Chico Buarque; de outro, os entusiastas do tropicalismo, a turma de Caetano e Gilberto Gil.

— Havia um clima de torcida, passional, composto por jovens universitários, que torciam por um ou outro grupo. Na verdade, até mesmo o júri estava dividido — relembra Cunha.

O principal organizador era o Diretório Acadêmico da Faculdade de Arquitetura (Dafa), que desde 1967 promovia festivais musicais não competitivos, os conhecidos Arquisambas, responsáveis por trazer a Porto Alegre nomes como Baden Powell, Edu Lobo, Chico Buarque, Nara Leão, Sidney Miller e Vinicius de Moraes. Uma das edições do Arquisamba foi totalmente dedicada ao tropicalismo, com Os Mutantes, Gal Costa e Tom Zé e Os Brazões.

— Porto Alegre estava em diálogo direto com o que havia de mais inovador na música brasileira — avalia o compositor e escritor Claudio Levitan.

O primeiro FUMPB, em 1968, teve sucesso de público e gerou um disco lançado pela Philips, registrando composições de Wanderley Falkenberg, Paulinho Tapajós e Raul Ellwanger, entre outros.

A influência tropicalista só apareceu em 1969. Além do Succo, bandas como Liverpool e o grupo que interpretava a canção Fortran IV (composta por Valdo Felinto e José Mario Bastos) — aquele com a menina de cinto de castidade e o imperador romano. Do outro lado, estavam nomes como Geraldo Flach, Nana Caymmi e Cynara, do Quarteto em Cy.

— De certo modo, o Festival Universitário foi uma versão provinciana dos grandes festivais da Record, que também tinham suas grandes vaias — observa Cunha.

Na noite da final, o Succo, que já estava encarando a competição de modo mais despreocupado, soltou uma galinha no palco. Depois de ter visto o grupo derrubar talco sobre orquestra, a multidão não se impressionou tanto com a participação da penosa. O que impressionou mesmo foi a canção Por Favor, Sucesso, composta por Carlinhos Hartlieb e interpretada pelo Liverpool — a grande vencedora da noite. Em segundo lugar, ficou Pela Rua da Praia, de Laís Aquino Marques, com O Bando. Já na terceira posição ficou Fortran IV, que tinha arranjos escritos pelo maestro tropicalista Rogerio Duprat. No dia 21 de julho, ZH não deixava dúvida no título da cobertura do evento: "'Tropicália' venceu no Festival Universitário'". A reportagem concluía afirmando que "o gênero deverá ainda alcançar grande repercussão nas mais diversas áreas da música popular brasileira".

A onda tropicalista arrefeceria ao longo do ano. Com as prisões de Caetano e Gil em dezembro, seguidas de exílio, o movimento se desestruturou. No entanto, Porto Alegre absorveu sua influência.

— O tropicalismo deixou uma marca importante, não tanto em termos de ritmo, como a bossa nova, mas em filosofia. Soltou as amarras para que a musicalidade viesse espalhada por tudo, transformando os arranjos. Nunca mais a MPB foi a mesma — avalia Cunha.

Rogério Ratner, autor do livro Woodstock em Porto Alegre, que resgata a história da música urbana gaúcha dos anos 1970, aponta:

— A criação do show Em Palpos de Aranha, de Claudio Levitan, ou do grupo Almôndegas, que misturava influência regional e rock, foi possível por conta dessa abertura musical promovida pelo tropicalismo. Foi um arejamento que mudou tudo.

Derrubaram o Urubu Rei

19/10/1985: A banda Urubu Rei, com Julio Reny, vira alvo de vaias, latas e garrafas durante o Atlântida Rock Sul Concert, no GigantinhoFoto: Dulce Helfer / Agencia RBS

Nem só as mostras competitivas geraram grandes vaias. Ao tentar conciliar na programação artistas de diferentes vertentes, os grandes festivais de rock tiveram músicos de renome enxovalhados pela multidão. Na abertura do Rock in Rio, em janeiro de 1985, Erasmo Carlos, Ney Matogrosso e Pepeu Gomes e Baby Consuelo foram escalados para tocar na mesma noite de Whitesnake, Iron Maiden e Queen — só Pepeu e Baby escaparam dos urros da plateia metaleira, apresentando um show repleto de virtuosismo e de guitarras distorcidas.

No mesmo ano, o Atlântida Rock Sul Concert reuniu pela primeira vez no ginásio Gigantinho, em Porto Alegre, os maiores destaques do novo rock brasileiro. Léo Jaime, RPM, Capital Inicial, Paralamas do Sucesso, Titãs e Camisa de Vênus foram os convidados dos primeiros dois dias, complementados pelos locais Os Eles, TNT, Engenheiros do Hawaii e Os Replicantes. Tudo estava tranquilo até a terceira noite, quando Ira, Legião Urbana e Ultraje a Rigor fechariam o espetáculo depois das gaúchas Taranatiriça e Urubu Rei.

Como no Rock in Rio, onde as bandas brasileiras precisavam lidar com a ansiedade do público pelas atrações internacionais, no Atlântida Rock Sul os grupos gaúchos encaravam uma plateia sedenta pelos destaques nacionais. E, também como no Rock in Rio, nem todos se deram bem. O grupo Urubu Rei foi tão vaiado que o show precisou ser abreviado por conta da enxurrada de latas e garrafas arremessadas ao palco — a própria banda não sobreviveu ao ataque, decretando seu fim meses mais tarde.

Os apupos começaram logo nos primeiros minutos, como conta o vocalista Julio Reny na biografia Julio Reny — Histórias de Amor e Morte, escrita pelo jornalista Cristiano Bastos: "Levamos uma fenomenal vaia. Coisa do inferno. Vaia gratuita, do nada, de mais de 15 mil pessoas". O cantor e compositor também lembra que sua então mulher, Jaqueline, e a filha, Consuelo, cinco anos, assistiam à performance: "Ao longo do show, em meio à saraivada de vaias, o público, em coro, começou a me chamar de veado. Eu não disse nada, apenas saquei a pequena garrafa de uísque, que eu guardava no bolso, e arremessei em direção a eles. Pra completar a tristeza daquela noite, a Jaqueline tinha levado a Consuelo ao show, e ela perguntou: 'Mãe, por que eles tão xingando o pai?'".

Para Carlo Castor Daudt, guitarrista da Urubu Rei, a vaia representa o momento de transição vivido então pelo rock gaúcho. Apesar de haver um circuito musical alternativo na Capital, que tinha como polo o bairro Bom Fim, Urubu Rei e outras bandas ainda não se projetavam na imprensa e no rádio, sendo completamente desconhecidas para muita gente.

— Essa vaia foi emblemática porque foi o último momento em que o rock gaúcho ainda era encarado como algo menor em relação aos artistas nacionais. Mais tarde, toquei na segunda edição do Rock Unificado, também no Gigantinho, com a banda Atahualpa y Us Panquis, com um show muito mais agressivo, e fomos muito bem recebidos — diz Castor.

De fato, entre o Atlântida Rock Sul e o 2º Rock Unificado, quase um ano depois, o lançamento do disco Rock Grande do Sul ajudou a projetar artistas dentro e fora do Estado. Com Engenheiros do Hawaii, Os Replicantes, Garotos da Rua, TNT e DeFalla, essa coletânea foi o primeiro aceno de uma gravadora internacional, a RCA, à nova cena roqueira gaúcha.

Só que o desconhecimento não foi o único propulsor das vaias ao Urubu Rei. Sua sonoridade também contribuiu.

A banda que subiu ao palco havia passado por uma reformulação. Saíram as cantoras, as atrizes Luciane Adami, Lila Vieira e Patsy Cecato, e a baterista, Biba Meira. Ficaram Carlos Eduardo Miranda, conhecido como Gordo Miranda, nos teclados; Carlos Castor Daudt na guitarra; e Flavio "Flu" Santos no baixo; entraram Julio Reny nos vocais e Bebeto Mohr na bateria. A mudança acompanhava uma tendência do rock brasileiro oitentista. Após o estouro da carioca Blitz, fenômeno nas rádios em 1982, popularizaram-se grupos inspirados pela new wave, mesclando teatro e humor, como Gang 90 e as Absurdettes e Metrô. Em um segundo momento, vieram as turmas de São Paulo (como Titãs e Ira!) e de Brasília (Legião Urbana, Capital Inicial), com sonoridade mais crua e ênfase nas letras. Atenta ao que era produzido fora do país, o Urubu Rei apostou em um som mais gótico, baseada em influências como Echo & the Bunnymen.

— Imagina o público desavisado, em 1985, que só escutava Ultraje e Legião nas rádios, ouvir um som parecido com bandas como The Icicle Works ou Killing Joke, mas cantado em português. Deve ter sido bizarro mesmo — avalia Castor.

Com o fim da Urubu Rei, Julio Reny reuniu Flu e Castor ao baterista Paulo Renato e ao percussionista Fred Lamachia para criar o Expresso Oriente — e se firmou como um do principais compositores gaúchos de rock. Em 1987, Castor e Flu foram para o DeFalla. Ao lado de Edu K e Biba Meira, lançaram os marcantes discos Papaparty (1987) e It's Fuckin' Borin' to Death (1988). Entre reformulações e rompimentos, o DeFalla virou uma banda com fãs fiéis, boa recepção da crítica e eventuais shows para multidões, como no Hollywood Rock de 1993. Neste festival, que recebeu Nirvana e Red Hot Chilli Peppers, Edu K resolveu tirar a roupa e permanecer no palco apenas com uma meia cobrindo a genitália diante das 30 mil pessoas que ocupavam a Praça da Apoteose, no Rio. Dessa vez, não houve vaia.

Os oito anos de trauma de Jerônimo Jardim

15/12/1985: Jerônimo jardim gera protesto do público ao vencer a Califórnia com Astro Haragano, derrotando a vanera Gaita de BotãoFoto: Banco de Dados / Agencia RBS

A vaia a Purpurina não foi a pior da carreira de Jerônimo Jardim. Em 1985, ao lado de uma banda competente, ele interpretou na 15ª Califórnia da Canção Nativa, em Uruguaiana, a milonga nada convencional Astro Haragano. De sua autoria, a letra homenageava a proximidade da passagem do cometa Halley, em 1986. Venceu o prêmio máximo.

Contrariando o parecer dos sete jurados, o público rejeitou a inovação estética da composição, cujo arranjo contava com sintetizador, violão elétrico e percussão, além de bacias com água que criavam um efeito sonoro no estilo de Hermeto Pascoal.

A preferida da torcida era Gaita de Botão (Antonio Augusto Fagundes/Moreno Martins), defendida por Neto Fagundes, uma vanera buliçosa.

— A vaia foi motivada por conservadorismo nativista — afirma Jardim.

Ele diz que o clima, após o anúncio da premiação, era de insatisfação moderada do público, mas nada que o impedisse de apresentar a canção. Então, alguém no palco teria chutado de volta uma latinha arremessada pela plateia. Foi aí que começaram a voar mais latinhas, depois garrafas e também pedras, aos berros de "Marmelada! Marmelada!". Assustados, artistas e repórteres refugiaram-se onde puderam. Jardim teve que aguardar pelo menos uma hora no camarim, consolado por colegas, pois muitos espectadores o aguardavam do lado de fora.

— O motorista que me levou de volta ao hotel era divulgador da minha gravadora e disse: "Estou te levando porque fui requisitado. Senão, te deixava lá, porque tua música é uma m...".

Acontece que o hotel também estava cercado. Jardim foi parar em uma casa onde os músicos confraternizavam e lá esperou. De volta a Porto Alegre, teve um ataque de pânico antes de um show que, já havia decidido, seria o último. E assim foi. Traumatizado, envolveu-se com outras atividades criativas, como a literatura, retornando à música apenas oito anos depois, quando Muni lhe pediu uma canção para um festival. A cantora escolheu Portal, a mesma que ele havia inscrito no MPB Shell antes de saber que estava concorrendo com Purpurina.

Uma grande expectativa cingiu sua volta à Califórnia, em 1996, agora como convidado. À certa altura da performance, ele pediu para os outros músicos se retirarem do palco. Respirou fundo e começou: "É fogo, é gelo/É verdade, ilusão/Vento de prata, escarcéu/Varando a noite campeira/Repontando estrelas/Na estância do céu". Astro Haragano saiu assim, só voz e violão, como havia sido composta. Onze anos depois, Jerônimo Jardim foi aplaudido de pé.


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