Atahualpa Yupanqui na Praça do Portão, em Porto Alegre, no ano de 1984
Paralelo 30

Atahualpa Yupanqui segue um clássico sem limites de geração ou gênero nos 25 anos de sua morte

Yupanqui foi um homem do campo, que percorreu seu país palmo a palmo e se tornou referência internacional com um trabalho revolucionário

Por Juarez Fonseca 19/05/2017 - 07h00min · Atualizada em 19/05/2017 10h21min
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Para Litto Nebbia, um dos fundadores do rock argentino, Atahualpa Yupanquié um farol: "Sua obra não tem limite geracional nem de gênero. É uma arte pura que nos representa, nos dignifica e nos mostra um caminho". A edição de maio da revista Rolling Stone argentina, de onde extraí essa citação de Nebbia, é toda dedicada a reverenciar Yupanqui na passagem dos 25 anos de sua morte, que se completa na próxima terça-feira. "Ele é o pai da música argentina", sintetiza um dos textos. Nascido Héctor Roberto Chavero, em 31 de janeiro de 1908, no interior da província de Buenos Aires, filho de um mestiço de origem quéchua e de uma descendente de bascos, Yupanqui foi um homem do campo, que percorreu seu país palmo a palmo e se tornou referência internacional. Mesmo se dizendo tradicionalista, seu trabalho foi revolucionário; influenciou todas as gerações futuras – e não só as da música folclórica.

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Tive a sorte de assistir a quatro recitais dele e de tê-lo entrevistado três vezes: em 1981, em Uruguaiana (maior show da história da Califórnia da Canção) e Porto Alegre, e em 1984, de novo na Capital. Nesta última vez, andamos um pouco pelo centro da cidade, sentamos na Praça do Portão e perguntei por que escolhera Porto Alegre para fazer as únicas apresentações brasileiras. "Escolhi porque esta região do Brasil, segundo minha experiência e minha apreciação, é uma das mais importantes, a que oferece uma fisionomia espiritual mais de acordo com o resto do continente sul-americano. Esta terra plana, seus amplos horizontes, se parece com meu pampa e com outros lugares da América. Há uma fraternidade no ar, na maneira de olhar de frente das pessoas, olhar de frente sem desafio, simplesmente com serenidade e segurança", disse. Não sei se hoje levaria a mesma impressão, mas essa é outra história...

Dom Atahualpa não era apenas extraordinário poeta, compositor e violonista, autor de clássicos como Los Hermanos, Los Ejes de Mi Carreta, Chacarera de Las Piedras, Milonga del Solitário, Camino del Índio (feita aos 18 anos!), Vidala Para Mi Sombra e a obra-prima El Payador Perseguido. Foi também um filósofo que encantava as plateias com sua sabedoria. As entrevistas que fiz com ele são talvez as que mais me marcaram, estão fixadas em minha memória. Numa delas, eu quis saber sua impressão sobre o mundo atual. "Eu penso que vá melhorar, porque de alguma maneira isso tem que mudar. Neste momento, vivemos a exaltação dos valores negativos, como se o mundo houvesse começado já a descrever a parábola da decadência de valores. Quando as pessoas já não são amigas do vizinho, quando não há necessidade de quem tem mais ajudar quem tem menos sem que lhe peçam, isso não pode continuar."

Também perguntei se havia algum ponto em comum entre ele e Jorge Luis Borges a respeito do gaucho. "Não, ele não crê no gaucho. Eu, sim, creio. Ele não acredita nas verdades de Martín Fierro, que afinal ele próprio diz em língua culta, enquanto Hernández as diz com uma linguagem de homem criado em terrenos abertos, com paisagens que nada têm de urbanas. Em matéria de psicologia do homem rural, Hernández conhecia tanto ou mais que Borges. Ele fazia viver seu personagem, e aí está o difícil. Mais fácil é comentá-lo sem havê-lo vivido, o que é o caso de Borges, que comenta, às vezes com eficácia, às vezes com erros, porque ele não viveu esse personagem. Uma coisa é montar a cavalo, outra coisa é contar como vai o que vai a cavalo." Perguntei: o senhor se sente mais índio ou gaucho? "Eu me sinto homem, me sinto homem e com isto estou tranquilo."

Uma definição famosa do mestre: "O homem é terra que anda".

ANTENA

Dos Arreios
De Mauro Moraes

Quando ganhou a 31ª Califórnia da Canção Nativa, em 2002, com a música Feito o Carreto, o uruguaianense Mauro Moraes já tinha um sólido trabalho exposto nas vozes de cantores como Bebeto Alves e Luiz Claudio Machado. Mas foi só no sétimo disco, Com Todas as Letras, dessa época, que ele decidiu ser o intérprete das próprias canções, tornando-se um dos mais reconhecidos e requisitados artistas gauchescos. Neste 17º álbum, pela primeira vez, divide a maioria das faixas com parceiros, entre eles Gujo Teixeira e Anomar Danúbio Vieira – são 12 milongas inéditas, apenas três feitas somente por ele. "Quis fazer um trabalho mais identificado com a temática campeira, por isso me 'socorri' de parceiros que lidam neste campo com mais talento do que eu", justifica. O produtor Juliano Gomes optou por arranjos simples mas qualificados, que destacam o diálogo dos violões e os vocais. "Somos homens dos arreios/ Somos povo do cavalo", canta Mauro na faixa-título.

Retalhos
De Alessandro Gonçalves

Natural de Jaguarão, destacado cantautor do sul do Estado, Alessandro Gonçalves ainda é pouco conhecido nas outras regiões. Com este terceiro álbum talvez consiga audições maiores, pois além de ótima música (com predomínio de milongas), o disco tem participações especiais de grandes nomes. Melodista inspirado, Alessandro também é um letrista que chama a atenção pela variedade temática e a filosofia de caminhante. Está entre os renovadores do regionalismo gaúcho surgidos nos anos 2000. Retalhos, diz, é um resumo de sua obra de 20 anos; e os convidados são pessoas que ajudaram a formar sua personalidade musical. Entre eles, Renato Borghetti, Mário Barbará, Pirisca Grecco, Marco Aurélio Vasconcellos, Chico Saratt, Luiz Marenco, Ângelo Franco, Robledo Martins, Maria da Conceição, os parceiros de fé Martim César e Paulo Timm. Violões e piano marcam a maioria das músicas, com as assinaturas de nada menos que sete arranjadores.

Da Porteira pra Dentro
De Cesar Santos

Ouvi pela primeira vez a música de César em 2013, quando sua milonga Petiço Mapa-Mundi, em parceria com Rafael ¿Cabo Deco¿ Ovídio, venceu a 37ª Califórnia da Canção Nativa. Era uma música projetada para além do simples regionalismo. Agora, com este primeiro álbum, produzido por Paulinho Goulart, podemos ter uma ideia ampla do que isso significa. César anda em paralelo, por exemplo, aos estilos de Vitor Ramil, do Tambo do Bando, de seus conterrâneos de Uruguaiana Sérgio Rojas e Pirisca Grecco. É um modernizador, na falta de um rótulo eu diria que faz MPB sulista. Como também é coautor dos arranjos, temos um músico com ideias firmes. Atua com vários parceiros letristas, sendo Cabo Deco o mais constante – ¿Revolução é paz de Gandhi/ Num coração juvenil/ É encontrar lucidez/ No sul do nosso Brasil¿, diz Flor na Mão, deles. César canta muito bem e, para completar, o disco tem construção instrumental à altura, irretocável. Uma revelação! Estes três álbuns estão à venda no site minuanodiscos.com.br

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