Exposição

Curador explica como será o "Queermuseu", nova exposição no Santander Cultural

ZH antecipa o teor de uma das principais apostas do ano artístico na Capital, a mostra Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira

Por Gaudêncio Fidelis 11/08/2017 - 18h00min · Atualizada em 11/08/2017 18h00min
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Acionar a questão da diferença sob uma perspectiva queer, em uma exposição, não é algo recorrente. Ainda mais com uma abordagem canibalista, nos termos do manifesto antropofágico de Oswald de Andrade, convergindo para uma questão de gênero.

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O Queermuseué o museu ficcional e metafórico no qual a expressão de gênero e a diferença são exercidas em sua plena liberdade. Nele, os parâmetros restritivos do cânone artístico não são mais dominantes, e o aparato museológico mostra-se desestabilizado. Obras convivem fora de uma hierarquia estrita, e a cronologia foi abolida para propiciar saltos conceituais no tempo, possibilitando que obras do passado convivam com as do presente.

Também não há homofobia em Queermuseu, embora se pense sobre o tema como meio de explicitar como esta é pervasiva na cultura. Trata-se de um campo de batalha em exasperação, já que as obras exibidas coexistem em atrito contínuo. Afinal, elas são o reflexo do mundo lá fora, e seus pressupostos conceituais, estéticos e ideológicos encontram equivalência na vida contemporânea. Arte e vida mostram-se próximas nesta exposição.

Há 264 trabalhos de 85 artistas em Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira. Um deles, O Eu e o Tu – Série Roupa-Corpo-Roupa (1967), de Lygia Clark (1920–1988), consiste em dois macacões feitos com tecido espesso e plastificado, tendo seu interior forrado com diversos materiais (saco plástico com água, espuma, palha de aço, borracha etc.). As duas peças são conectadas por um tubo de borracha, simulando um cordão umbilical. Dois capuzes são usados para cobrir os olhos e os ouvidos de quem as veste, o que faz com que os macacões possam ser vestidos por pessoas de identidades de gênero distintas.

As roupas permitem acesso ao corpo do outro por meio de seis zíperes. Ao vesti-las, os participantes identificam as aberturas e, introduzindo as mãos nelas, tocam-se, identificando sensações que alteram as percepções de gênero e permitem experimentar características que não se conformam com aspectos do feminino e do masculino. Certas noções de gênero e sexualidade são suspensas, e a normatividade passa a residir em uma condição provisional da psique.

Essa obra de Lygia Clark antecipou o caráter não normativo do gênero para além das barreiras da cultura em uma época na qual sequer se pensava nisso. O regime da normatividade dá lugar a uma possibilidade de empatia afetiva. Além disso, ela rompe as fronteiras entre o self, uma construção cumulativa dos fenômenos da experiência e da percepção, consolidada pela memória, e o eu, uma multitude de funções da psique ordenadas pela construção de gênero, cultura e performatividade sexual.

A inclusão de outras obras de diferentes períodos, estilos e inclinações estéticas, lado a lado, destaca a incursão da diferença a partir de uma perspectiva histórica. A estratégia tem por objetivo trazer essas obras para o tempo presente por meio de um rasgo epistemológico temporal e conceitual. Queermuseué, acima de tudo, uma exposição que visa dar projeção à arte por meio desse corte transversal, articulando uma abordagem afirmativa da vida produtiva do desejo, que enfrenta o que Georges Bataille chamou de a "fobia do olho".

O olho, para Bataille, constitui uma "iguaria canibal". Nesta exposição queer canibalista, ele aparece regado por um jato ejaculatório em uma obra de Mauricio Ianês. A imagem perturba o ato contemplativo, que é uma convenção do retrato como gênero artístico. O olho lacrimeja, portanto, chora, enquanto o olhar que devora, agora, é consumido pelo vouyerismo do espectador. O olhar sofre uma perturbação.

Queermuseu põe em movimento um mecanismo de reversibilidade do espaço museológico, que se encontra obscurecido pela estrutura patriarcal que o fundamenta. Vale lembrar que não estamos em um museu, mas em uma plataforma curatorial transmuseológica. E trata-se de uma plataforma não normativa, ou, melhor dizer, não heteronormativa, que se distancia dos princípios formalistas frequentemente empregados em exposições. Queermuseu abre espaço para vislumbrar um horizonte de formas que podem ser pensadas como existindo fora da norma, tangenciando o corpo e o olho, ressaltando seu caráter selvagem, canibal, em uma experiência na qual a inclusão é exercida para além dos parâmetros restritivos que estabelecem o cânone artístico.

Para visitar

Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira

– Abertura para convidados terça-feira, às 19h.

– Visitação de quarta até 8 de outubro, de terças a sextas-feiras, das 10h às 19h, e aos sábados e domingos, das 11h às 19h.

– No Santander Cultural (Rua Sete de Setembro, 1.028), fone (51) 3287-5500.

– Entrada franca

Preste atenção

Paralelamente à exposição, o Cine Santander, localizado no subsolo do centro cultural, exibe a mostra de filmes Queer Cinema, até 30 de agosto, com 22 longas-metragens e uma minissérie de televisão sobre o universo queer (veja a programação diariamente no roteiro do Segundo Caderno).

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