The New York Times

Após a morte do parceiro, o luto pela falta de sexo

Por The New York Times
20/03/2017 - 13h50min
Compartilhar:

Quando o marido de Alice Radosh, com quem ficou casada 40 anos, morreu em 2013, além das condolências habituais ela recebeu inúmeras ofertas de ajuda em questões financeiras, relacionadas ao carro e aos reparos na casa, mas ninguém, nem os amigos mais chegados, nem o psicoterapeuta que a ajudava a superar o luto, tiveram coragem de falar sobre uma necessidade que aflige muitos idosos que sobrevivem a seus parceiros sexuais.

Publicidade

A viúva, que tem 75 anos e é neuropsicóloga, refere-se a ela como "falência sexual", definida pela dor associada à perda da intimidade com um parceiro de muitos anos. O resultado, como ela e a coautora Linda Simkin descreveram em um relatório recém-publicado, é "um luto marginalizado, uma dor que não é reconhecida abertamente, permitida socialmente, nem compartilhada publicamente".

"É o sofrimento do qual ninguém fala; acontece que, se não conseguir superá-lo, ele terá efeitos negativos sobre a saúde física e emocional e a pessoa nunca estará preparada para um próximo relacionamento, se a oportunidade surgir", diz Alice, que é de Lake Hill, Nova York, em entrevista.

Sim, caros leitores, filhos e filhas de pais mais velhos, muita gente na terceira idade continua tendo desejos sexuais e necessidade de intimidade, que acabam relegados e/ou não saciados quando o parceiro adoece gravemente ou morre.

"Estudos mostram que as pessoas estão fazendo sexo com prazer aos 60, 70 e 80 anos e consideram essa relação uma parte extremamente importante em suas vidas. Só que quando o parceiro, morre, isso acaba", prossegue ela.

Em um estudo de uma amostra representativa nacional de 3.005 norte-americanos adultos, a Dra. Stacy Tessler Lindau e seus colegas descobriram que 73 por cento desse grupo na faixa etária de 57-64 anos, 53 por cento entre 65-74 anos e 26 por cento entre 75-85 anos, ainda eram sexualmente ativos.

"Apesar disso, uma análise publicada pelo Departamento de Saúde do Reino Unido, em 2013, o chamado Perfil Nacional de Serviço para Idosos, não faz menção aos problemas relacionados a questões sexuais enfrentadas pela terceira idade. Os pesquisadores chegaram inclusive a sugerir que alguns profissionais da saúde se mostram preconceituosos, referindo-se às relações sexuais entre idosos como 'nojentas' ou 'simplesmente esquisitas' e, por isso, evitam tocar no assunto com os pacientes", escreveram Radosh e Simkin na publicação científica Reproductive Health Matters.

As autoras realizaram uma "pesquisa exploratória" com mulheres que atualmente estão casadas com o objetivo de estimular outros estudos sobre a falência sexual e, mais importante, reduzir a relutância tanto de leigos quanto de profissionais em falar mais abertamente sobre essa questão incômoda, emocional e fisicamente.

Como uma terapeuta que leu o artigo escreveu: "Duas clientes minhas enviuvaram recentemente e se sentiram diferentes por 'sentirem falta de sexo nessa idade'. Vou usar seu estudo como referência para ambas".

Outro escreveu: "A matéria me fez pensar em toda a falência sexual que existe, seja entre solteiros e divorciados, seja pelo desinteresse e pelo motivo que estou vivenciando, a prostatectomia. É assunto de que ninguém fala".

Uma pesquisa anterior registrou: "Médicos e terapeutas em geral não se sentem à vontade para falar sobre sexo com pessoas mais velhas; o resultado é que essas discussões nunca acontecem e, se ocorrem, não são naturais". Mesmo livros de memórias que falam sobre a morte do esposo e se transformaram em best-sellers, como "O Ano do Pensamento Mágico", de Joan Didion, não abordam a perda da intimidade sexual.

Em vez de trabalhar com viúvos, Radosh e Simkin preferiram investigar uma amostra de 104 mulheres casadas, de 55 anos ou mais, para que sua pesquisa destaque ainda mais a angústia das mulheres enlutadas, reforçando o tabu "de morte e sexo".

Elas mencionam o comentário sarcástico de uma mulher que disse não ser uma boa viúva. "Sim, porque uma boa viúva não sente falta de sexo, nem fala a respeito. Pelo visto, não sirvo nem para isso."

A maioria das participantes se disse sexualmente ativa, com 86 por cento afirmando que "gostava de sexo". Quase 75 por cento acham que sentiriam falta de sexo se o parceiro morresse e muitas afirmaram ter vontade de falar sobre sexo com os amigos após a morte, porém, 76 por cento delas admitiram preferir que a outra pessoa inicie a discussão, em vez de puxar o assunto.

As pesquisadoras também descobriram que mesmo as mulheres que se disseram à vontade para falar de sexo admitiram nem pensar em iniciar uma conversa sobre o tema com um(a) amigo(a) que acabou de perder o(a) parceiro(a). Quanto mais velha a pessoa enlutada, menor a probabilidade de querer falar sobre o assunto: enquanto metade das entrevistadas afirmou que tocaria no assunto com um(a) amigo(a) de 40 a 49 anos, somente 26 por cento discutiriam a questão com alguém entre 70-79 e apenas 14 por cento, se o(a) amigo(a) tivesse 80 anos ou mais.

Entretanto, mesmo entre os viúvos jovens, o tópico raramente é abordado, como explica Carole Brody Fleet, de Lake Forest, na Califórnia, autora de "Happily Even After", que enviuvou aos 40 anos. Em entrevista, ela confirmou: "Ninguém tocou no assunto da minha sexualidade." Fleet, que realiza workshops para viúvos, é direta a respeito do tema com os participantes, mas diz que alguns se sentem "péssimos" até mesmo por pensar nele.

Ela conta: "O sentimento que prevalece é o de culpa. Os viúvos não falam sobre a perda da intimidade sexual com amigos, nem com profissionais da saúde mental porque se sentem traidores. Pensam: 'Como posso me sentir assim?', mas a verdade é que não há traição, nem deturpação do amor pelo parceiro que morreu."

"A pessoa pode honrar o passado, dar-lhe o devido valor, mas não pode viver ali. Não é uma questão de opção. O que dá para fazer é incorporar a vida antiga naquela que está se iniciando. A nossa capacidade de amar é infinita."

Porém, Carole, que voltou a se casar nove anos após a morte do marido, alerta para a precipitação no caso do luto da perda da intimidade sexual. "Quando você sente falta do contato físico, pode tomar decisões que nem sempre são as melhores. O sexo pode interferir no julgamento; talvez seja só isso. Ajuda pensar na situação sem o sexo e reavaliar o relacionamento depois que os dois se tornaram íntimos."

Alice recomenda aos viúvos que falem sobre a questão sexual com um terapeuta ou grupo de apoio. "Mesmo que não seja uma coisa espontânea, natural, é preciso incluir o tema na conversa. Dê dicas aos amigos mais chegados de que quer falar. É preciso tornar esse tipo de conversa em coisa normal."

Por Jane E. Brody

Compartilhar:

Publicidade