The New York Times

Os americanos ainda precisam fazer muito para melhorar sua saúde cardíaca

Por The New York Times
20/04/2017 - 14h41min
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Vasos sanguíneos estreitos e envelhecidos, que colocam a maioria dos idosos americanos em risco de sofrer doenças do coração e derrames, não são inevitáveis. Essa constatação foi reforçada pela publicação de um novo estudo sobre uma população boliviana da Amazônia.

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Entre esses indígenas sul-americanos, conhecidos como tsimanes, a quantidade de indivíduos com arteriosclerose coronária foi um quinto da dos cidadãos dos Estados Unidos. Tomografias computadorizadas de 705 tsimanes entre 49 e 94 anos revelaram que quase nove em dez tinham artérias coronárias limpas e nenhum risco de sofrer uma doença do coração. A equipe de pesquisa estima que uma pessoa de 80 anos no grupo dos tsimanes tem a mesma idade vascular de um americano de 50 e poucos anos.

Vamos voltar às possíveis razões e às lições salva-vidas que podemos aprender com eles, mesmo agora depois de uma discussão sobre o meio século de melhoras na saúde coronária dos americanos.

No início dos anos 1960, quando comecei a escrever sobre ciência e saúde, os corações dos americanos estavam em péssimas condições. Doenças cardíacas, uma causa de morte incomum no começo do século XX, haviam se tornado a razão preponderante 50 anos depois.

A mortalidade por doenças coronárias teve seu auge em 1968, quando não era incomum para os americanos morrerem de ataques do coração com 50 ou 60 anos. Na época, cerca de 40 por cento dos adultos fumavam, os médicos consideravam um nível de colesterol de 240 miligramas por decilitro de sangue "normal" e quase metade dos jovens apresentavam pressão arterial hoje considerada alta.

Se a taxa de mortes por razões coronárias tivesse continuado seu crescimento meteórico, hoje mais de 1,7 milhões de americanos sucumbiriam a doenças cardíacas todos os anos. Ao invés disso, houve um declínio significativo, para cerca de 425 mil mortes por ano, com um aumento de expectativa de vida proporcional de 8,7 anos entre 1970 e 2010. Mais de 70 por cento desse crescimento de expectativa de vida pode ser atribuído ao menor número de mortes por doenças cardiovasculares, principalmente ataques do coração e derrames.

Os incontáveis milhões que escaparam de uma morte cardiovascular prematura podem agradecer, em parte, a meio século de medidas de saúde pública e outras iniciativas preventivas da medicina que agora estão ameaçadas por cortes propostos no orçamento do país.

Sozinha, a queda do tabagismo teve um impacto importante, declinando para cerca de 15 por cento dos adultos. (Infelizmente, os adolescentes, grupo em que o número de fumantes já esteve abaixo do dos adultos, agora os alcançaram.) Apenas o hábito de fumar já aumenta o risco de doenças cardíacas, a pressão sanguínea alta e a tendência do sangue a coagular e diminui a tolerância a exercícios e o colesterol HDL, que protege o coração.

Mas, quando o hábito de fumar se combina a outros fatores de risco coronários, como pressão sanguínea e colesterol altos, obesidade ou diabete tipo2, os riscos de um ataque cardíaco, um derrame ou uma morte prematura por razões coronárias aumentam muito.

Um declínio na média de níveis de colesterol no sangue também possui um papel importante na queda de mortes por razões coronárias. Hoje apenas cerca de 12 por cento dos adultos americanos têm níveis altos de colesterol total – 240 miligramas ou mais –, embora um terço ainda conviva com taxas elevadas – 130 miligramas ou mais – de colesterol LDL, que prejudica as artérias.

As pessoas com colesterol total alto correm quase duas vezes mais risco de sofrer uma doença do coração do que aquelas com níveis ideais (200 miligramas ou menos), e apresentar altos níveis de LDL – acima de 100 miligramas – é ainda mais problemático. No entanto, mesmo hoje, menos de metade dos adultos com níveis elevados de LDL estão sendo tratados para reduzi-los.

Além disso, reconhecer e tratar a pressão arterial alta, com base nos resultados de uma série de estudos de medicamentos promissores, ajudou a salvar o coração e a vida de incontáveis americanos que, de outra maneira, teriam sucumbido a doenças coronárias desde o pico de sua incidência.

Hoje, porém, um adulto em cada três sofre de pressão alta e, desses, apenas metade faz tratamento para controlar os níveis. Outro terço dos adultos tem pressão mais alta do que o normal, embora ainda não no nível considerado elevado. Assim, o tratamento deficiente continua contribuindo bastante para as doenças e mortes por razões cardiovasculares.

Com muita frequência, a abordagem americana das doenças do coração equivale a fechar as portas do estábulo depois que o cavalo já fugiu. Quando já estão em apuros, com uma lesão arterial que ameaça suas vidas, os pacientes são normalmente tratados com stents na esperança de impedir que os vasos se fechem, com um custo de US$30 mil a US$50 mil para cada procedimento.

No entanto, apesar de a operação para colocar um stent realmente ajudar aqueles que estão em vias de sofrer um ataque cardíaco, pelo menos oito testes clínicos feitos com pacientes escolhidos ao acaso descobriram que, para pessoas com doenças arteriais estáveis, eles não oferecem mais benefícios do que tratamentos médicos não invasivos – dieta, exercícios e, talvez, o consumo de estatinas baratas. Ainda assim, mais de metade de pacientes coronários estáveis, que podem ter sintomas como dor no peito durante exercícios físicos vigorosos, recebem stents antes de tentar terapias mais conservadoras.

Então, o que podemos aprender com os tsimane? Remédios, tratamentos com stents e outros procedimentos caros são nossa única esperança de cortar ainda mais a mortalidade por causas coronárias? Sim, se milhões de americanos continuarem a desprezar mudanças em seus hábitos de vida que várias vezes foram comprovadas como protetoras do coração.

Os tsimanes têm um estilo de vida horticultor-forrageiro. Os homens tsimane se mantêm fisicamente ativos por uma média de seis a sete horas por dia – acumulando cerca de 17 mil passos por dia – e as mulheres estão ativas por quatro a seis horas por dia, andando cerca de 15 mil passos diários. É raro encontrar um fumante entre a população.

A dieta dos tsimanes tira 72 por cento de suas calorias dos carboidratos, mas não dos amidos e farinhas altamente refinados consumidos pela maioria dos americanos. Os tsimanes comem carboidratos complexos não processados ricos em fibras, como arroz integral, banana da terra, mandioca, milho, nozes e frutas.

Mas o tsimanes não são vegetarianos. A proteína representa 14 por cento de suas calorias e vem principalmente de carnes que, ao contrário do que acontece com as carnes americanas, possuem baixos teores da gordura saturada que entope as artérias.

Isso não significa que devemos voltar à vida de caça e colheita ou à agricultura de subsistência para proteger nossos corações. Mas seria bom adaptar o exemplo dos tsimanes e mudar nossa dieta rica em gordura, cheia de alimentos processados, com pouca fibra e muito açúcar e nosso estilo de vida altamente sedentário.

A maioria dos americanos hoje é quase ou completamente inativa. Apenas 20 por cento dos adultos seguem a recomendação de um mínimo de 30 minutos por dia de atividades físicas, e menos de metade faz o suficiente para atingir qualquer benefício significativo para o coração.

Na verdade, um novo estudo de pesquisadores do Centro Médico da Universidade de Colúmbia descobriu que apenas 16 por cento dos sobreviventes de ataques cardíacos fazem atividades físicas suficientes depois de serem liberados pelo hospital: nas primeiras duas semanas, são recomendados pelo menos 30 minutos por dia de exercícios aeróbicos moderados, como andar rapidamente, no mínimo cinco dias por semana.

Por Jane E. Brody

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