Despedida na política

Um homem que tinha histórias para contar

Ex-marido de Dilma Rousseff, Carlos Araújo é um desses personagens laterais com a vida marcada pelos principais acontecimentos da história recente do Brasil

Por Rosane de Oliveira 12/08/2017 - 11h58min · Atualizada em 12/08/2017 13h09min
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A casa em que Carlos Araújo viveu nas últimas décadas, à beira do Guaíba, no bairro Tristeza, diz muito sobre o animal político que ele era. Da varanda envidraçada vê-se a ilha em que esteve preso na época da ditadura. Em vez de apagar da memória as más lembranças, Araújo fazia questão de contar histórias e fazer articulações políticas olhando para a Ilha das Pedras Brancas, cenário de um dos capítulos mais dramáticos da vida de militante de esquerda capturado pelas forças da repressão. 

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Foi na militância política, usando o codinome de Max, que ele conheceu e se apaixonou pela jovem Estela (que também foi conhecida pelo codinome Vanda), uma mineira que na carteira de identidade levava o nome de Dilma Vana Rousseff Linhares. O nome verdadeiro ele só soube quando a companheira foi presa. Araújo seria preso mais tarde, e, como ela, torturado pelo regime militar. Depois de libertados, vieram morar em Porto Alegre.

Moravam à época em casa da Avenida Copacabana, herdada do pai, local que tornou-se uma espécie de sucursal da Assembleia Legislativa na elaboração da Constituição Estadual, em 1989. Araújo era deputado pelo PDT, mas recebia colegas de todos os partidos para reuniões que, com frequência, terminavam em churrascos que se estendiam pela madrugada. Mais jovem do grupo, o deputado Mendes Ribeiro Filho (PMDB), que tornou-se amigo do casal, contava que ninguém do grupo poderia imaginar que Dilma passaria de coadjuvante a protagonista da política anos depois. Discípulo de Brizola, Araújo era um dos poucos trabalhistas que não dizia amém para o velho caudilho. Quando Brizola tentou impor a candidatura de Carrion Júnior para a prefeitura de Porto Alegre, no inverno de 1988, Araújo fez valer o domínio que tinha da máquina partidária, venceu a convenção em uma tarde cinzenta de sábado e mudou as manchetes que já estavam prontas com a indicação do economista recém saído do PMDB. 

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Araújo já era ex-deputado e estava separado de Dilma quando ela virou ministra de Minas e Energia do primeiro governo Lula, catapulta para a candidatura vitoriosa a presidente em 2010. Nunca se viu na história política do Rio Grande do Sul um ex-casal tão afinado politicamente. Amigo e conselheiro, rompeu com o PDT incomodado com a forma como o partido a tratou quando migrou para o PT. Retornou anos depois, mas já sem nenhuma influência sobre a base. Nos anos em que Dilma viveu em Brasília, como ministra e depois como presidente, era a ele que recorria nos momentos de crise política. Pai de sua única filha, Paula, e já casado com Ana Lúcia Meira, tinha o ouvido sempre disponível para escutar os lamentos por telefone e as portas da casa abertas para acolher a ex-companheira a quem continuou chamando de "Nêga".

O casal Carlos Araújo e Ana Lúcia era convidado permanente para o Palácio da Alvorada e para acompanhar a então presidente, a filha e os netos nos feriadões em locais distantes da curiosidade pública. Muitas vezes, Araújo ficou impossibilitado de viajar porque a saúde frágil não permitia.

Quando Dilma vinha a Porto Alegre, e não estava de dieta, ele fazia questão de preparar carne de panela, o prato preferido da ex-mulher. Na mesma sala de jantar em que discutia questões de Estado com a presidente da República, Araújo recebia os amigos de uma confraria eclética, que se reuniam para jantares regados a bom vinho. Remanescentes da antiga Arena eram tratados com a mesma cordialidade de velhos amigos da esquerda.

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O enfisema pulmonar que o torturou nos últimos anos impunha uma vida de restrições, mas Araújo continuou exercendo a advocacia trabalhista até perto do fim. Andava com um cilindro de oxigênio e, não raro, precisava interromper o almoço para combater uma crise de falta de ar.

No período em que Dilma esteve na Presidência, a casa da Avenida Copacabana deu trabalho para os seguranças. Pessoas que não conseguiam acesso ao Palácio do Planalto procuravam Araújo na esperança de que resolvesse suas demandas, legítimas ou ilegítimas. De candidatos a ministro do Supremo Tribunal Federal a inventores inspirados no Professor Pardal das historias em quadrinhos, Araújo recebia quem lhe pedia audiência e avisava:

- Não tenho esse poder que as pessoas imaginam, mas vou ver se é possível fazer alguma coisa. 

Na crise que precedeu o impeachment, foi ele o amigo mais fiel de Dilma. A história dos dois tem elementos que, nas mãos de um bom roteirista, renderiam uma minissérie. 

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