Relatórios secretos

Fernando Collor de Mello, o queridinho da América 

Primeira eleição presidencial direta do Brasil após a ditadura militar, o histórico pleito de 1989 foi acompanhado com atenção pelos EUA, que apostaram em Fernando Collor de Mello para derrotar Lula e Brizola 

Por Rodrigo Lopes e Carlos Rollsing
19/05/2017 - 09h30min
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Foto: Arte sobre foto / Banco de Dados / Banco de Dados

Preocupado com a hipótese de perder o Brasil como parceiro comercial e disposto a manter a influência política hegemônica na América do Sul, o governo dos Estados Unidos promoveu intensa atividade de observação e espionagem durante a primeira corrida presidencial brasileira pós-ditadura militar, em 1989, com a produção de dezenas de relatórios do Departamento de Estado para manter informado o governo do então presidente George H. Bush.

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Documentos secretos do país, liberados à consulta pública em 2014, revelam como os norte-americanos se surpreenderam com a ascensão de Fernando Collor de Mello, adotando-o como candidato de sua preferência com a intenção de derrotar Leonel Brizola e Luiz Inácio Lula da Silva. A embaixada dos EUA no Brasil, que não fazia ideia de quem era Collor, apostou em um levantamento completo da vida do político, incluindo aspectos pessoais e morais. Nos documentos, chegam a ser relatados supostos episódios de extorsão de empresários para formar um fundo destinado a campanhas políticas.

As correspondências sobre a campanha de 1989 envolveram o primeiro escalão de Washington. Em maio daquele ano, o então secretário de Estado, Lawrence Eagleburger, enviou documento à embaixada de Brasília pedindo mais informações sobre o candidato que venceria as eleições. "Por causa do crescente interesse em Collor, gostaria de obter uma análise mais aprofundada sobre ele e suas perspectivas na campanha presidencial. Questões como o papel que a TV irá desempenhar em seu sucesso ou fracasso e o tipo de acesso a que Collor terá na mídia seriam interessantes. Também, um esboço de suas posições nos principais temas de campanha seria útil. (...) Finalmente, algumas impressões pessoais sobre Collor nos ajudariam a obter uma melhor percepção sobre ele", diz determinação enviada por Eagleburger, nome mais importante da política externa norte-americana à época, para a embaixada dos EUA em Brasília.

A resposta dos diplomatas no Brasil ao chefe Eagleburger não tardou: ainda em maio, seis meses antes do primeiro turno, o relatório destaca o despontar de um azarão sob o título A Dark Horse Comes to the Fore: Fernando Collor de Mello Leads in the Most Recent Election Polls ("Um azarão corre por fora: Fernando Collor de Mello lidera nas mais recentes pesquisas eleitorais").

O então líder do modesto PRN ganhou a simpatia dos EUA quando ficou evidente que ele era alinhado à abertura do mercado brasileiro e ao neoliberalismo. Ante os discursos de Lula e Brizola, que bradavam a favor de estatizações e protecionismos comerciais, a retórica de Collor soava como música aos ouvidos do governo norte-americano. Era o período de queda do socialismo no Leste Europeu, o que potencializava a expansão dos mercados capitalistas. Uma relação de proximidade foi costurada nos meses seguintes, com subsequentes encontros entre Leopoldo Collor, irmão do candidato e um dos seus coordenadores de campanha, e nomes fortes da embaixada e dos consulados americanos no Brasil – os relatórios são assinados pelos diplomatas Kunkel, Ferrer, Rowe (Leslie), Harrington (Anthony), Frechette, Melton (Richard), Shlaudeman (Harry) e Schwartz.

Em ao menos dois episódios, Leopoldo solicita ajuda para conseguir uma foto do irmão candidato com Bush e para lidar com setores da Igreja durante a campanha. Tudo era reportado pelo Departamento de Estado, inclusive ideias acerca de política econômica para conter a inflação, derrubada de barreiras comerciais, enxugamento da máquina pública e privatizações.

Primeira eleição presidencial direta do Brasil em 29 anos, o pleito de 1989 é remontado pelos documentos obtidos por ZH. Os papéis, também disponíveis em formato virtual, foram coletados na biblioteca do Congresso, em Washington, pelo professor Waldemar Dalenogare Neto, doutorando em História na PUCRS e especialista em assuntos relacionados aos EUA.

– Sem dúvida, esses documentos representam a cobertura mais ampla que os EUA fizeram de uma eleição na América Latina durante a Guerra Fria. Para eles, Collor se tornou um nome interessante, capaz de impor medidas neoliberais – avalia Dalenogare. Collor viraria o preferido da Casa Branca.

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O "AZARÃO" AOS OLHOS DOS EUA

Reportado o surgimento do "azarão", os Estados Unidos enviaram um cônsul a Alagoas para fazer um levantamento completo da trajetória do político. A Casa Branca sabia tudo sobre Brizola e Lula, também tinha informações abundantes a respeito de Mário Covas e Paulo Maluf, outros dois fortes concorrentes, mas desconhecia completamente Collor, apesar de a candidatura dele ter apresentado fortalecimento desde o final de 1988.

Foto: Reprodução / Reprodução

Em Alagoas, que fora governado por Collor até maio de 1989, o cônsul participou de reuniões nas quais conversou com políticos, empresários, amigos e inimigos do então presidenciável. Também questionou aleatoriamente trabalhadores nas ruas de Maceió. Uma prospecção que expôs as contradições do candidato, que se apresentava como "anti-establishment" quando, na verdade, poderia ser considerado parte deste.

"O quadro de Collor que emergiu desses encontros é o de um político solitário, ambicioso, inteligente, não cooperativo, que quase destruiu o Estado em sua campanha para ser presidente. Em contraste com esse retrato pintado por líderes estaduais, tudo indica que muitos cidadãos comuns de Alagoas veem Collor como um Robin Hood, lutando contra o impopular presidente José Sarney e as poderosas elites locais. E eles irão votar nele para presidente", diz trecho do documento do Departamento de Estado intitulado Fernando Collor de Mello no Front Doméstico, de maio de 1989.

Clique na imagem para ler a íntegra do documentoFoto: Reprodução / Reprodução

Logo na primeira incursão, os EUA descobriram as duas faces do candidato: uma negativa, sustentada por lideranças e empresários regionais, e outra positiva, bancada por uma população encantada pelo "caçador de marajás", alcunha atribuída a Collor pelo discurso de combate aos privilégios e altos salários de funcionários públicos.

No documento seguinte, de junho daquele ano, o Departamento de Estado especula que Collor poderia ter dificuldade para sustentar até o final da campanha a sua popularidade pela aparição de incoerências entre discurso e prática, como no caso dos marajás. "Como prefeito (de Alagoas): em seu último dia no governo, nomeou uns 5 mil ou 6 mil indivíduos à folha de pagamento. Collor diz que foi um erro; que alguém anexou uma longa lista de nomes aos 16 indivíduos que ele tinha realmente nomeado", descreve trecho de Um Outro Olhar sobre Collor, de 37 páginas.

Os documentos ainda listam riscos à imagem do candidato em decorrência de atos como deputado federal e governador: "Corrupção. Os críticos de Collor afirmam que a renda dos marajás cresceu, não diminuiu sob Collor. (...) Acusações menores de peculato surgem: uma compra não autorizada de cerca de cem veículos e um 'fundo secreto' do orçamento do Estado usado para gastos com campanha pessoal", diz o mesmo documento.

Um episódio de suposto desvio de conduta foi relatado por um empresário que teria sido assediado para antecipar o pagamento de tributos: "O cônsul também visitou a Salgema, uma grande empresa química em Alagoas. Lá, o diretor José Acioli afirmou que Collor tinha sido um desastre. (...) Como exemplo, disse que Collor havia solicitado o pagamento de impostos estaduais duas semanas antes da data de vencimento, o que custou à empresa uma grande quantia em dinheiro. (...) Em 1988, Collor também exigiu que Salgema pagasse impostos estaduais com 10 meses de antecedência. (...) Collor precisava de dinheiro na época para financiar a campanha de seu candidato a prefeito, Renan Calheiros, bem como para pagar os salários do Estado", registrou o Departamento de Estado.

A Salgema se recusou, diz o relatório, a fazer o segundo adiantamento de impostos. Collor teria, então, sugerido que a companhia remetesse o dinheiro e, depois, alegasse um erro de digitação responsável por incluir um zero a mais no valor a ser recolhido. A empresa disse não ter aceitado a trama por entender que levaria "meses para receber os fundos e, provavelmente, apenas por ação judicial". Aliado de Collor à época, Renan concorreu à prefeitura de Maceió em 1988, mas não se elegeu.

– O curioso é que os americanos estavam informados sobre as denúncias de corrupção em Alagoas, mas mesmo assim apoiaram o Collor, porque do outro lado havia Brizola e Lula. O empresariado pensou da mesma maneira: mais vale um aventureiro do que Brizola e Lula – analisa o jornalista Mario Sergio Conti, apresentador da GloboNews, colunista da Folha de S. Paulo e autor do livro Notícias do Planalto, que abordou a relação da imprensa com o governo Collor.

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Conti destaca que a apresentação de um programa de abertura econômica e a modernização do Brasil era a ideia original do então líder do PRN – algo que não pode ser atribuído a uma influência norte-americana.

Os documentos do Departamento de Estado, avalia Waldemar Dalenogare Neto, historiador especializado em política dos EUA, não deixam explícito se houve qualquer ação efetiva do governo de George H. Bush para ajudar Collor ou se a relação foi restrita à simpatia programática.

– Collor era moldado para ser o candidato dos EUA, mas, se houve interferência de fato, não é possível afirmar. Há coisas que ficaram nas entrelinhas, outras que não chegaram a ser registradas. Trata-se de algo que ainda precisa ser investigado – diz Dalenogare.

Para Marco Antonio Villa, historiador, colunista de O Globo e autor de Collor Presidente, a intervenção americana na eleição brasileira de 1989 foi "nula":

– Seria exagerado dizer que Collor se tornou o candidato dos EUA. Ele interpretou o sentimento de grande parcela da população. Colocou no governo Sarney o carimbo de corrupto, entendeu o fenômeno da globalização e a conjuntura econômica internacional. A modernização do Brasil, a concorrência na indústria, a reestruturação do Estado são todos produtos do governo Collor. Ele teve defeitos, é uma pessoa problemática, porém, os postulados econômicos defendidos na época estavam certos.

Villa, hoje feroz crítico de Lula, Dilma e o PT, destaca a agudeza da crise ao afirmar que a inflação "bateu em 84% apenas em uma quinzena de março de 1990", quando o primeiro presidente eleito pós-ditadura assumiu. O frustrado plano de controle inflacionário e o congelamento da poupança – um trauma para o país – foram importantes para a derrocada de Collor, aliados às denúncias de corrupção que levaram ao impeachment de 1992.

As constatações dos EUA ainda trazem questionamentos sobre o fato de o então candidato se apresentar como anti-establishment, mas ser apoiado na campanha por líderes poderosos e oligárquicos abonados. "Collor tem o apoio de ricos empresários (...). Outro amigo é o magnata Paulo Octavio, do Brasília Real State Construction, que supostamente está fornecendo capital para a campanha; e o empresário de Brasília Luis Estevão de Oliveira, que forneceu a sede da campanha de Collor. (...) Ouvimos também que a rica família Monteiro de Carvalho, da primeira esposa de Collor, está arrecadando fundos para a campanha", reporta o cônsul à Casa Branca. O ex-senador de Alagoas e empresário João Lyra também é citado como um financiador.

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Após o trabalho de campo, os norte-americanos interpretaram que o candidato não era o "antissistema" que declarava ser. "A família de Collor domina a TV, o rádio e a mídia impressa em Alagoas. O irmão de Collor, Leopoldo, foi diretor regional da TV Globo em São Paulo. A relação para os adversários é que Collor não é anti-establishment, mas simplesmente o novo rosto que o antigo establishment está usando para minar progressistas como Lula, Brizola e Covas", diz o relatório.

Para Villa, ao menos no aspecto político, Collor pode ser considerado anti-establishment por ter governado "sem baixar a cabeça para o Congresso". A falta de apoio parlamentar acabou sendo mais um dos fatores da sua queda.

DESEJO DE SE ENCONTRAR COM BUSH

Em junho de 1989, Collor estava preocupado em construir sua imagem no Exterior. Havia visitado vários países europeus, tendo se encontrado com o papa João Paulo II no Vaticano, o chanceler alemão Helmut Kohl e a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher. Mas ele queria ir aos EUA. "Não há nada que ele gostaria mais para coroar suas viagens do que uma visita bem-sucedida aos EUA", diz o documento Visita de Collor aos EUA, com data de agosto de 1989.

A viagem seria entre 5 e 12 de setembro, dois meses antes do primeiro turno. Com o candidato do PRN crescendo nas pesquisas, diplomatas norte-americanos recomendaram ao Departamento de Estado que abrisse espaço na agenda de altos funcionários da Casa Branca para receber Collor: "Correspondências recomendam que o candidato presidencial principal Fernando Collor de Mello (...) seja recebido pelo vice-presidente", diz o texto. Em 3 de agosto, o próprio Collor teria dito a um encarregado americano estar "muito interessado em encontros de alto nível, inclusive com o presidente" George H. Bush. Esse desejo era mais difícil de satisfazer. O funcionário americano explicou a Collor que Bush não se encontrava com candidatos, mas que recomendaria outros nomes do primeiro escalão: o secretário de Estado Lawrence Eagleburger, o secretário do Tesouro Nicholas Brady, a chefe da agência de comércio Carla Hills, o conselheiro de Segurança Nacional Brent Scowcroft, o secretário de Comércio Robert Mosbacher e congressistas de áreas como comércio exterior, dívida externa e questões ambientais. A embaixada também recomendou uma audiência com o vice-presidente Dan Quayle: "Essa reunião iria enviar a mensagem de que nós o levamos a sério", diz o documento de agosto de 1989.

O Departamento de Estado recomendou ainda que todos os contatos para a organização de reuniões fossem tratados informalmente, à margem do Itamaraty e da embaixada brasileira, "a fim de evitar vazamentos com potencial mal-estar".

Collor teria ficado satisfeito com os nomes de alto escalão, mas acabaria por não viajar aos EUA durante a campanha. Mesmo à distância, as promessas do então candidato seguiram seduzindo os observadores norte-americanos, em especial sua defesa de uma economia de livre-mercado. Segundo Dalenogare Neto, o interesse da potência do Norte na América Latina tinha como objetivo manter a hegemonia no continente e, além de monitorar eventuais ameaças, leia-se Lula e Brizola, evitar a abertura de uma brecha para o comunismo. Nesse contexto, justifica-se o entusiasmo norte-americano com o "azarão" alagoano, confirmado após os encontros dos Poloff ("political officer", ou funcionário da diplomacia não identificado, conforme os documentos) com Leopoldo Collor.

Em um café da manhã na casa de Leopoldo em São Paulo, em 28 de setembro de 1989, os diplomatas contam que o então conselheiro econômico de Brizola, Cesar Maia, poderia eventualmente se juntar a Collor: "Tenho a intenção de chamá-lo", considerou Leopoldo, segundo documento enviado ao Departamento de Estado. Leopoldo repetiu que, uma vez no Planalto, seu irmão não teria dificuldade em "atrair os melhores e mais brilhantes (nomes) para o seu gabinete, independentemente de ideologias". O irmão de Collor projetava a equipe ministerial: "Por que não contar com José Serra ou Fernando Henrique Cardoso?", questiona Leopoldo, conforme os registros (nenhum dos dois assumiu). E assinala a frase que faria os EUA observarem ainda mais de perto a candidatura do irmão: "Collor quer construir uma forte relação com os EUA". Leopoldo explicou ainda que, quando seu irmão assumisse, o Congresso seria "relativamente fraco e maleável".

As relações entre representantes do governo americano e Leopoldo se aprofundaram passado o primeiro turno, em 15 de novembro de 1989. Em 24 de novembro, o irmão detalha a estratégia do confronto com Luiz Inácio Lula da Silva ao cônsul-geral dos EUA em São Paulo e a outro funcionário, descrito apenas como Poloff, em encontro na sede do PRN em São Paulo: "Ele (Collor) não vai atacar Lula pessoalmente, a menos que seja atacado primeiro. Collor centrará suas atenções no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e em São Paulo", informa o trecho. "Collor acredita que os eleitores no Rio Grande do Sul, que são essencialmente conservadores, podem estar dispostos a votar em Collor", prossegue o relatório. Lula acabou ganhando o segundo turno no Estado.

Conforme documento de nove páginas, Leopoldo prometeu aos norte-americanos que "um dos primeiros atos de Collor como presidente será propor uma emenda constitucional para dar a si próprio mais poder para combater a inflação e reformar a economia". Em um longo relatório, a partir da conversa de uma hora de duração, são descritas estratégias como não propagandear o apoio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp): "Ele já sabe que pode contar com os votos na Fiesp, e o apoio público pode ser contra produtivo", afirma o documento. Leopoldo descreve ter enviado uma mensagem ao presidente da entidade, Mario Amato, sugerindo que parasse de dar declarações sobre a eleição – Amato havia dito que 800 mil empresários poderiam deixar o Brasil se Lula vencesse. "Amato ficou ofendido com seu pedido", relata Leopoldo, segundo o documento.

O irmão de Collor também estava preocupado com a ala progressista da Igreja Católica, tradicionalmente de esquerda. "O que vocês podem fazer sobre a Igreja?", perguntou Leopoldo aos funcionários norte-americanos, segundo um documento de novembro de 1989.

– Os fatos são muito relevantes. Mostram como Leopoldo abriu o jogo da campanha para interessados de outro governo e como a equipe de Collor consolidou uma relação com os Estados Unidos – avalia Dalenogare.

Mario Sergio Conti, no entanto, acredita que Leopoldo Collor não foi importante nas eleições:

– Leopoldo não era pessoa central na campanha. Central era o próprio Collor: ele tinha o controle. As pessoas foram se agregando. Tinha o PC Farias, o próprio Renan Calheiros, o Cláudio Humberto.

Segundo fontes próximas à campanha, Collor tinha admiração por Leopoldo. Era uma referência como irmão mais velho. Eles viveram muito tempo juntos em Brasília, com os pais um tanto ausentes. Mas, ao mesmo tempo, havia uma rivalidade entre os dois. Leopoldo morreu rompido com o mano.

Marco Antonio Villa minimiza o interesse dos EUA pelo Brasil:

– A preocupação do Departamento de Estado não era com a América Latina, mas com o momento em que estava caindo o socialismo real, caindo o Muro de Berlim e terminando a União Soviética. Eles poderiam ter preocupação com uma vitória da esquerda, sim. Mas, sobretudo, estavam preocupados com Brizola, que era mais orgânico e de confronto, apesar de o Brizola de 1989 já estar mais moderado depois de ter recebido exílio nos Estados Unidos durante o governo Jimmy Carter.

O FUTURO EM SUSPENSE

Mal acabara o segundo turno, e o Departamento de Estado produziu, a partir de suas bases diplomáticas brasileiras, um relatório sobre os "vencedores e perdedores" da disputa. Há euforia com o triunfo de Collor registrado no documento de 17 de dezembro de 1989.

"Fernando Collor de Mello, com 40 anos, entrará no cenário mundial como o garoto maravilha que veio do desconhecido para vencer a primeira eleição direta para presidente do Brasil em 29 anos. Enquanto um Collor derrotado poderia muito bem tê-lo apagado na história, Lula é um vencedor mesmo perdendo. Seu Partido dos Trabalhadores liderou uma campanha animada que chegou perto de derrotar Collor", registra trecho do documento de 12 páginas.

O texto ainda cita as acusações da campanha de Lula a TV Globo pela edição do debate entre os dois candidatos, na semana da votação. No trecho final, são abordados os "interesses econômicos" dos EUA. Descortinando o futuro, os americanos revelavam cobiça pelo mercado de tecnologia do Brasil: "Deve Collor cumprir sua promessa de encerrar a reserva do mercado de informática. (...) Os consumidores brasileiros, universitários e técnicos serão os vencedores (estendendo-se aos norte-americanos e outros exportadores estrangeiros); empresas de computadores brasileiras protegidas e ineficientes, em especial a burocracia da Secretaria para Informática e contrabandistas, serão os perdedores".

Menos de dois anos depois, em 23 de outubro de 1991, Collor sancionou a lei 8.248, que tratava da "competitividade do setor de informática e automação", abrindo o mercado a investimentos e produtos estrangeiros. Foi um dos legados de seu governo, historicamente esquecido em meio à memória daqueles anos que remetem à corrupção e à personalidade do jovem presidente.

– A Lei de Informática mudou o patamar de produção de equipamentos no país. Ela beneficiava as empresas que produzissem hardware no Brasil, inclusive as estrangeiras que se instalassem aqui, com menor cobrança de impostos. E essa arrecadação deveria ser reinvestida em pesquisa e inovação. Isso fez com que a formação de recursos humanos na área da computação deslanchasse. Hoje nossos programas de pós-graduação competem com os principais mercados do mundo – afirma Avelino Zorzo, professor de pós-graduação do curso de Ciência da Computação da PUCRS.

Na época das mudanças, os principais produtos da indústria da informática eram os microcomputadores e os aparelhos de telecomunicações. Com a abertura promovida por Collor, o país se aproximou da velocidade da inovação. Os computadores de mesa começaram a chegar ao consumidor com mais agilidade e menor preço. E as empresas norte-americanas foram parte desse processo, justificando parte do interesse do seu governo nas ações de Collor.

Embora o tom de euforia com o novo tempo que se inaugurava no Brasil, o relatório enviado após as eleições contém um registro de ares proféticos sobre o que estava por vir: "Collor e seus aliados não são vencedores sozinhos dessa eleição. Acreditamos que o povo brasileiro e os EUA também ganharam. Mas Collor agora tem o poder de desapontar. Resta saber se ele está à altura de liderar uma nação tão complexa e conturbada".

Foto: Reprodução / Reprodução

Na Rio-92, grande vitrine internacional do governo Collor, a CIA mostrou-se uma observadora perspicaz. Semanas antes da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, que reuniu representantes de 108 nações entre 3 a 14 de junho de 1992, a agência produziu um documento de 15 páginas intitulado Perspectivas sobre o Presidente Collor na Véspera da Cúpula do Rio. Esse texto está disponível na internet, no sistema FOIA, da CIA. Traz uma avaliação do governo brasileiro no front interno: "Collor deverá continuar conquistando vitórias significativas na privatização de empresas públicas". Também define como preocupante a relação do Planalto com o Congresso: "Há entre 40% e 45% de chance de o parlamento não aprovar as partes mais críticas do pacote legislativo neste ano".

O conjunto de projetos era vital, na visão norte-americana, para derrubar a inflação, gerar crescimento econômico e conquistar apoio político. Funcionários dos EUA chegaram a prescrever uma espécie de cartilha a ser seguida pelo governo brasileiro, com a qual Collor "deve se comprometer para o sucesso de sua presidência". Um item afirma que o Planalto precisa "conquistar apoio no Congresso dividido para garantir a passagem de emendas constitucionais e legislação complexa para cortar o grande déficit fiscal e empreender reformas estruturais e econômicas".

O último ponto do texto chama a atenção por adentrar na vida privada do presidente. Segundo o documento, Collor "deve lidar com alegações de malversação contra altos funcionários do governo e corrupção pessoal – incluindo o uso de drogas".

Em outro trecho, o documento antecipa o discurso que Collor adotaria em eventual encontro com George H. Bush. "Ele está convencido de que satisfez a maior parte das questões que foram incômodas a Washington no início de seu mandato". Os assessores antecipam que o brasileiro também pode reclamar de "falta de reciprocidade" norte-americana.

Collor assumira em março de 1990, empenhado em estabilizar e reestruturar a economia por meio de reformas que abraçassem o livre-mercado. Os EUA consideraram que o presidente obteve sucessos iniciais, eliminando barreiras comerciais, cortando a "inchada máquina pública" e lançando um "ambicioso programa de privatizações em setores como aço, petroquímicos, fertilizantes e transportes". Mas falhou, na visão norte-americana, em seu objetivo de derrotar a inflação. Segundo o documento da CIA, em conversas com o presidente Bush e com altos funcionários dos EUA, "Collor e seus representantes oferecerão um catálogo de ações construtivas tomadas por seu governo em áreas como garantias nucleares, controles estratégicos de comércio, movimentos em direção à aderência às diretrizes do regime de controle de tecnologia de mísseis, a liberalização do comércio, a cooperação com os EUA no GATT (General Agreement on Tariffs and Trade, Acordo Geral de Tarifas e Comércio) e, em geral, posições construtivas em linha com as dos EUA".

Antes de vir ao Brasil como palestrante na Rio-92, George H. Bush havia se encontrado com Collor em 1990, em Brasília, quando os dois falaram sobre a transferência de tecnologias e renegociação da dívida externa. Foi quando Collor conseguiu a tão desejada foto ao lado de Bush pela primeira vez.

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