Comunicação

Em seis meses de jornalismo investigativo, 22 reportagens publicadas pelo GDI

Grupo lança luz sobre assuntos que mexem com a vida do cidadão e provoca autoridades a corrigir erros

Por Zero Hora
12/06/2017 - 23h00min
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Foto: Camila Domingues / Especial

Há meio ano, em dezembro de 2016, o Grupo RBS reuniu 10 dos seus mais experientes jornalistas investigativos e formou o GDI: um Grupo de Investigação que tinha por objetivo entregar ao público gaúcho um número muito maior de reportagens investigativas.

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Formado por repórteres de Zero Hora, RBS TV, Rádio Gaúcha e Diário Gaúcho, o Grupo de Investigação completa seis meses reforçando o que há de mais nobre no jornalismo.

Com 22 reportagens publicadas desde dezembro do ano passado, o grupo lançou luz sobre assuntos que mexem com a vida do cidadão e provocou autoridades a corrigir erros. As reportagens tiveram mais de 1,3 milhão de páginas visualizadas no site de ZH.com.br e alcançaram 6,6 milhões de pessoas pelo Facebook.

Para o presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Thiago Herdy, a iniciativa da RBS pode se transformar em referência para outras redações:

– Pelo modelo de dedicação a investigações de longa duração e pela característica dos repórteres estarem fora da pauta diária, o GDI nos parece o único nas redações do país. Torcemos muito para que ela se replique, inspire outros veículos, se fortaleça, amadureça dentro do próprio Grupo RBS e que se torne indispensável ao jornalismo que a RBS pretende promover.

O presidente do Grupo RBS, Eduardo Sirotsky Melzer, destaca a importância do GDI dentro dos propósitos da empresa:

– O jornalismo que fazemos exerce uma importante função social, de contribuir, a partir da informação, para impactar positivamente a sociedade. Mais do que nunca, precisamos de jornalismo de qualidade, realizado por jornalistas profissionais, o que demanda investimento. O GDI é um projeto concreto que estamos fazendo a partir da nossa responsabilidade e do nosso compromisso de entregar esse jornalismo a serviço da democracia.

No final de junho, jornalistas e estudantes vão trocar experiência com repórteres do GDI durante o 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, em São Paulo. No painel "Spotlight brasileiro: o Grupo de Investigação RBS", o editor do grupo, Carlos Etchichury e os repórteres especiais Humberto Trezzi (ZH) e Jonas Campos (RBS TV) falarão sobre os bastidores do GDI.

Além do congresso da Abraji, o GDI fará, também em junho, uma palestra promovida pela Associação Nacional de Jornais (ANJ). No Rio Grande do Sul, o grupo tem despertado a curiosidade no mundo acadêmico. Entre março e maio, o GDI foi apresentado em seis faculdades de Jornalismo: UniRitter Laureate International Universities, PUCRS, ESPM, UFRGS, Centro Universitário da Serra Gaúcha e Unijuí.

– Aos poucos, o GDI se constitui em uma referência de jornalismo de qualidade, reconhecido pelos leitores, comprometido em denunciar malfeitos e transformar a realidade – complementa Carlos Etchichury, editor do GDI.

Relembre as reportagens

5 de dezembro
Perigo no Prato
O GDI comprovou que a Ceasa, central de distribuição, vende alimentos contaminados, acima do limite permitido ou inadequados para a cultura.

13 de janeiro
Neonazismo no Estado
Ligações de jovens gaúchos com italiano de extrema-direita que teria agido como recrutador de combatentes para a guerra civil na Ucrânia.

15 de janeiro
Golpe milionário em São Francisco de Assis
Calote aplicado por agiota afetou mais de 400 pessoas que podem ter sido vítimas de um esquema milionário.

17 de janeiro
Desmanches proibidos
Venda ilegal de peças de veículos em desmanches e automóveis depenados em depósitos oficiais.

19 de janeiro
Irregularidades em contratos da Fasc
Após ZH revelar em novembro irregularidades em contratos de locação da Fasc, Polícia Civil abriu inquérito e fez operação de busca e apreensão.

5 de fevereiro
Fraudes na CNH
Golpes envolvendo condutores e despachantes impediam a suspensão do direito de dirigir de motoristas infratores. Até mortos recebiam pontos na carteira.

12 de fevereiro
Golpe no WhatsApp
Por meio do WhatsApp e com a ajuda de funcionários de operadoras, falsários clonam as contas para pedir dinheiro a familiares e amigos das vítimas.

17 de fevereiro
CIA monitora Brasil
Documentos da agência americana mostram que, além de políticos, artistas, jornais e até mesmo uma fábrica estavam no radar dos arapongas.

2 de março
Facinepe, a faculdade de papel
Faculdade inativa Facspar, integrante do Grupo Facinepe, comprada pelo advogado Faustino da Rosa Junior, emitia diplomas e certificados sem valor legal.

14 de março
Contrato para apoio político em Triunfo
Ex-candidato e prefeito firmaram contrato para troca de apoio por CCs na eleição em Triunfo.

29 de março
Calotes no Badesul
Após reportagem denunciar a concessão de empréstimos sem garantias, relatório da PGE confirma pressão de dirigentes do banco por contratos.

3 de abril
BM usa viatura para atividades particulares
Soldado usava carros da PM para atividades como levar uma menina na escola, ir a posto de saúde e ao mercado.

7 de abril
Caça-níquel em Porto Alegre
Oculto por lojas, bares e imóveis que parecem abandonados, caça-níqueis, ilegais no Brasil, estão disseminados em Porto Alegre.

9 de abril
RS polo de carros roubados
Como funcionava a quadrilha que roubava 150 automóveis por mês na Região Metropolitana.

17 de abril
Diárias para PMs em presídios
Apenas em 2016, o pagamento de diárias para 500 PMs que atuam nas cadeias do RS chegou a R$ 12,3 milhões.

2 de maio
Fraudes em concursos
Investigações do MP apontam golpes em concursos em 29 cidades do RS. Reportagem colheu depoimentos, indícios e provas.

9 de maio
Por que Porto Alegre alaga
Relatório aponta que drenagem feita por Casas de Bombas (CBs) em Porto Alegre está operando com apenas 50% do necessário para evitar alagamentos.

15 de maio
Supersalários na CGTEE
Embora esteja em situação falimentar, a estatal pagou em 2016 a alguns de seus diretores salários mensais de até R$ 56.687,79.

19 de maio
Fernando Collor, querido da América
Documentos do Departamento do Estado Americano apontam que Fernando Collor de Melo era o candidato favorito dos EUA para a eleição de 1989.

30 de maio
Descontrole na Cootravipa
A maior terceirizada da prefeitura da Capital atua com descontrole, faz serviços de má qualidade e sem fiscalização e superfatura contratos.

3 de junho
Conexão Facinepe/Medellín
Com certificado obtido em instituição vinculada ao Grupo Facinepe, de Porto Alegre, cirurgião plástico causa mutilação e morte em mulheres na Colômbia.

"Trabalhando para os leitores", afirma Alves

O professor Rosental Alves, que fundou o Centro Knight para o Jornalismo nas Américas da Universidade do Texas, em Austin, fala da importância do jornalismo investigativo.

Quais são os principais desafios das reportagens investigativas?
Além dos desafios tradicionais de descobrir e contar os fatos que estão tentando esconder, o jornalismo investigativo enfrenta hoje as consequências do choque da internet nos modelos de negócio dos meios de comunicação. Só as empresas mais comprometidas com a responsabilidade social do jornalismo e mais antenadas em relação ao futuro têm sido capazes de entender que não se pode parar de investir na reportagem investigativa. A investigação jornalística é cara, mas é fundamental numa democracia.

Jornais regionais têm força para manter grupos de investigação?
Aqui nos Estados Unidos houve uma queda indisfarçável da investigação jornalística nos jornais e emissoras de TV regionais durante a última década, quando as consequências financeiras da internet nas empresas jornalísticas foi mais forte. Ultimamente, no entanto, temos observado jornais regionais e emissoras locais de TV dando mais valor às reportagens investigativas, criando força e recursos para sustentá-la.

É uma forma de diferenciar reportagens das fake news?
Sim, a existência de grupos de investigação é uma forma de mostrar aos leitores que estamos trabalhando para eles. Quanto mais material, investigativo e de profundidade, mais condições de se diferenciar da cacofonia das redes sociais onde as notícias falsas proliferam.

Com redações enxutas, como manter repórteres investigativos?
Este é, sem dúvida, o grande desafio, pois os jornais estão faturando menos em publicidade e a reportagem investigativa é cara. Redações enxutas, porém, não podem ser apenas menores. Precisam ser redações com estruturas diferentes das que tínhamos antes. Temos que automatizar o máximo, deixar de fazer certos trabalhos e retrabalhos e liberar recursos, mesmo em redações enxutas, para a realização de investigações, para correr atrás de histórias que estão tentando esconder da sociedade.

"A sociedade precisa disso", diz Bucci

Professor de Jornalismo da Universidade de São Paulo (USP) e colunista da revista Época, Eugênio Bucci entende que a existência do jornalismo investigativo é fundamental e imprescindível numa sociedade democrática.

Qual é a importância do jornalismo investigativo no atual momento do país?
Esse tipo de apuração e fiscalização do poder realiza como nunca a missão da imprensa. O jornalismo investigativo levou mais longe a capacidade do jornalismo de informar. A sociedade democrática não pode viver sem jornalismo investigativo. Não dá para existir democracia sem isso. Ele precisa ser fortalecido porque a sociedade precisa disso. A gente sente falta de mais revelações de investigações autônomas conduzidas pelo jornalismo. Neste momento, temos uma capacidade do jornalismo investigativo realmente menor que no tempo do impeachment de Fernando Collor. Na época, a imprensa levantou muitas informações exclusivas. O jornalismo tem feito matérias sobre as investigações da Polícia Federal. Naquela ocasião, o jornalismo achou muita informação por conta própria, muito mais do que se comparado ao período do impeachment de Dilma Rousseff e agora dessa agonia ridícula de Michel Temer.

Quais são os principais desafios para se fazer reportagens investigativas na atualidade?
Elas custam caro, e os modelos de financiamento das redações estão em um momento de muitas incertezas. Mas o leitor reconhece e precisa disso. Mas mais do que leitor e o mercado reconhecer, a imprensa tem de fazer jornalismo investigativo porque tem de fazer, antes de receber qualquer reconhecimento. E temos de pensar em como fazer isso.

Os jornais regionais têm força e dinheiro para manter grupos exclusivos para investigação? Os leitores valorizam esses esforços?
Acho que ZH é um dos melhores exemplos do Brasil nessa modalidade. Só tenho uma ponderação a fazer: pela solidez, pela constância e pelo alcance, podemos tratar ZH como um jornal regional mas que tem características que ultrapassam isso. 

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