Crime no campo

Levantamento mostra pouca investigação em furto de gado no RS

Nos 10 municípios em que mais houve abigeato no Rio Grande do Sul em 2015 e 2016, foram registradas 3.358 ocorrências, mas somente em 5,8% dos casos houve indiciamento

Por Giovani Grizotti
30/07/2017 - 23h07min
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Foto: Giovani Grizotti / Agencia RBS

Dados obtidos com base na Lei de Acesso à Informação mostram que a maior parte das ocorrências de furto de gado registradas em delegacias do Estado é ignorada pela polícia. Em 2015 e 2016, os 10 municípios em que esse tipo de crime mais ocorreu registraram 3.358 casos, mas só 198 inquéritos com indiciamento foram remetidos ao Judiciário – o equivalente a 5,8% do total. Reportagem produzida pela RBS TV e exibida pelo Fantástico no domingo (30) mostrou o drama vivido por produtores, que, acossados por quadrilhas, chegam a abandonar propriedades.

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Segundo a Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), o furto de 8,7 mil cabeças em 2016 causou prejuízo de R$ 70,6 milhões. O abigeato também expõe o risco a que está submetido quem consome essa carne, bem como a crueldade com que os animais são abatidos nas fazendas.

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Os criminosos costumam agir de duas maneiras: o método mais rudimentar consiste em carnear as reses na propriedade. Em Itaqui, na fronteira com a Argentina, ladrões agem em barcos, as chalanas, pelo Rio Uruguai. E abatem os animais à luz do dia.

– Botam para dentro do barco e vão embora tranquilamente. No rio não há fiscalização. Eles têm a certeza de que não vão ser incomodados – desabafa um criador que prefere não ser identificado.

À noite, bandidos usam cavalos para entrar nas fazendas. Um pedreiro, que por 10 anos fez parte de uma quadrilha na região, contou que, primeiro, as reses são laçadas e imobilizadas. Depois, abatidas a tiros ou com o uso de facas. Relatou que, após realizarem a carneação, as partes não aproveitáveis são deixadas no campo. O resto é transportado sobre o lombo dos cavalos, sem cuidado sanitário.

– Laçava, matava, carneava e levava em cima do cavalo. Chegava a fazer uns 50 quilômetros, 70 quilômetros por noite – conta.

Há também quadrilhas mais organizadas, que carregam dezenas de cabeças de gado de uma só vez, usando carros e caminhões, geralmente clonados. Foi o que aconteceu com João Rodrigues, em Caçapava do Sul. Ele abandonou o campo após sumirem 118 animais da propriedade que arrendava. Hoje, trabalha como pedreiro em um prédio que está sendo erguido por parentes.

Em Alegrete, nem a constante movimentação de militares e até de tanques de guerra intimida a ação dos ladrões, que abateram 23 reses de uma propriedade arrendada do Exército por um criador.

– Eles roubam os cavalos (do próprio Exército) para levar o gado. É um horror, vaca por dar cria, terneiro por nascer em uma semana, eles tiram fora, matam a vaca, não querem saber – desabafa o fazendeiro, que pediu para não ser identificado.

No município, as vítimas registraram, em 2015 e 2016, 328 casos. No período, apenas 16 inquéritos foram remetidos à Justiça, com indiciamento, ou seja, com autoria apontada pela polícia.

Outro exemplo de crueldade foi registrado há duas semanas, em Bagé, onde bandidos levaram 15 ovelhas, a maioria prenhe, abandonando os fetos no campo. No município, foram registrados 455 casos no ano passado e no anterior, mas somente 31 inquéritos com indiciamento foram enviados à Justiça.

Em Santana do Livramento, que liderou o ranking estadual nesse período, a situação é ainda mais preocupante: de 498 casos registrados, oito inquéritos foram concluídos com indiciamento.

Força-tarefa entra em ação

O secretário estadual da Segurança Pública, Cezar Schirmer, admite que combater o abigeato não é prioridade, mas afirma que, neste ano, as ocorrências diminuíram 27% nos meses de janeiro a julho em relação a igual período do ano passado, a partir da criação de uma força-tarefa, com sede em Bagé.

– Estamos realizando operações de grande resultado e grande significado contra o abigeato – afirma o secretário.

A equipe age em todo o Estado e já prendeu 114 suspeitos e desarticulou 17 quadrilhas. Uma das principais descobertas do grupo comandado pelo delegado Adriano Linhares é o envolvimento de funcionários de fazendas.

É o caso do sumiço de 180 reses e ovelhas de duas propriedades de Santana do Livramento, pertencentes a um único dono. Os dois capatazes foram presos. A voz de um deles foi reconhecida pelo fazendeiro em uma escuta realizada com autorização da Justiça.

Em uma fazenda em Quaraí, o capataz também estava envolvido no furto do gado. No local, agentes descobriram quatro animais furtados, um deles "clonado", em tática semelhante à usada por ladrões de carros.

A marca original sobre o couro do animal foi removida e, sobre ela, impressa outra, não identificada. A adulteração foi descoberta por meio de perícia. 

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