Repercussão

Após demissão de diretor técnico da Procempa, empresas de ônibus contratarão monitoramento por GPS

Sócio de empresa responsável por testes de monitoramento via GPS em coletivos da Carris, Michel Costa é alvo de investigações

Por Carlos Rollsing
09/08/2017 - 22h00min
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Foto: Félix Zucco / Agencia RBS

Diretor-técnico da Procempa e presidente do Conselho de Administração da Carris, Michel Costa entregou nesta quarta-feira carta de demissão ao prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Junior. A saída ocorre 26 dias após reportagem do Grupo de Investigação da RBS (GDI) revelar que a Safeconecta, empresa da qual Michel é sócio, era a única a fazer testes de monitoramento de ônibus via GPS na própria Carris. Essa fase precede o lançamento de licitação para aquisição definitiva do serviço. Em um contrato de cinco anos, a prefeitura estimou que o negócio deve variar entre R$ 9 milhões e R$ 12 milhões.

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A aquisição de GPS para a frota e de serviços de câmeras de vigilância, reconhecimento facial nos coletivos e adoção de meios virtuais de pagamento das tarifas estavam entre as prioridades da gestão. A coordenação dos projetos era de Costa, que agora deixa a função "a fim de garantir transparência nas avaliações do município e de seus órgãos de controle", informou a prefeitura em nota.

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O governo ainda anunciou que "a diretoria-técnica da Procempa será acumulada pelo presidente da companhia, Paulo Roberto Miranda. No Conselho de Administração da Carris, assumirá, neste momento, o suplente Cássio Mattos".

— Ele vinha fazendo um serviço de TI importante para o município, uma série de aplicativos. Mas o mercado tem outras pessoas qualificadas para tocar esses projeto — avaliou o vereador Clàudio Janta (SD), líder do governo na Câmara.

A prefeitura disse que a contratação do monitoramento de ônibus por GPS será feita diretamente pelas empresas de ônibus da cidade — uma mudança ao plano anterior à publicação das reportagens, quando a ideia era fazer licitação única pelo Executivo para todo o sistema de transporte.

Empresário da Tecnologia da Informação, especializado em meios de pagamento e monitoramento, Costa é sócio de mais de uma dezena de startups do ramo. Ele conquistou a confiança de Marchezan ainda durante a campanha de 2016, quando a OWL Gestão e Tecnologia, que o tinha como sócio, coordenou as redes sociais do então candidato. Depois, a mesma empresa desenvolveu e registrou o Banco de Talentos, uma das principais vitrines de Marchezan. Vencido o pleito, o prefeito entregou a Costa uma das tarefas prioritárias da gestão: avaliar e contratar tecnologias que modernizassem a cidade. As pressões sobre o empresário e gestor público se agravaram quando outra reportagem do GDI revelou que a OWL, no segundo semestre de 2016, prestou um serviço de protocolo ao Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer). O contrato, apontou a Contadoria e Auditoria-Geral do Estado (Cage), teria sobrepreço de R$ 422 mil. A seleção de prestadora de serviço, via cartas-convite, foi feita com a participação de cinco empresas dos mesmos proprietários — incluindo Costa. 

Ele passou a ser, desde a revelação de que a Safeconecta fazia testes na Carris, investigado pelo Ministério Público (MP), Ministério Público de Contas (MPC) e por uma comissão da Procuradoria Geral do Município (PGM). No caso do Daer, também há apurações do Tribunal de Contas do Estado (TCE) e uma sindicância do governo estadual. Um depoimento de Costa, com o objetivo de prestar esclarecimentos, havia sido marcado para acontecer na Câmara de Vereadores para o próximo dia 17. Com o pedido de demissão, Janta acredita que a sessão não será mais necessária. O mesmo não ocorrerá com o MP e o MPC, que asseguraram o prosseguimento das investigações para averiguar se Costa incorreu em conflito de interesse e eventual improbidade administrativa.

— O projeto de tecnologia do Marchezan e a sua relação com empresários do ramo estão sob suspeita. As empresas desse senhor (Costa) vão continuar trabalhando para o governo? Seria uma saída conveniente. Ele (Costa) não era qualquer um, foi a Paris junto com o Marchezan. O governo ainda deve explicações — avaliou o vereador Roberto Robaina (PSOL).

Em reunião com Marchezan, Costa entregou a carta de demissão. Após o almoço, fez a última reunião com chefes da área técnica da Procempa. Procurado pela reportagem, disse que estará à disposição para falar a partir da próxima terça-feira.

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