24/06/2012 | 12h07m

Entrevista

Caetano Veloso fala sobre "Transa"

O disco foi lançado há 40 anos

Universal,Divulgação / Divulgação

Recolhido para o processo de composição de seu próximo disco, Caetano Veloso topou conversar com Zero Hora sobre os 40 anos de Transa, disco que o tempo consolidou como obra-prima. Na entrevista, ele fala sobre a relação afetiva com o álbum, os bastidores das gravações na efervescente Londres — onde viveu como exilado por dois anos e meio, entre 1969 e 1972 —, a colaboração de Jards Macalé, a influência dos Beatles e dos Rolling Stones e seu encontro com o “cafona” David Bowie.

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Zero Hora — Você já disse que considera Transa um de seus melhores discos. Como foi sua relação com o álbum no correr dos anos? 
Caetano Veloso
 — Eu gostei dele quando o fiz. Mas o achei mais satisfatório com o passar do tempo. Mas o fato é que não ouço meus discos quase nunca. Então, não sei direito.

ZH — Você tem carinho especial por alguma canção do disco?
Caetano
 — Adorava Triste Bahia e Mora na Filosofia, mas acho que é porque eram as duas cantadas só em português. Outro dia, vendo o filme Coração Vagabundo, de Fernando Gronstein Andrade, ouvi um som genial e moderno. Fiquei me perguntando: que banda incrível é essa? Depois de um tempo, reconheci: era Neolithic Man.

ZH — A opção de misturar inglês e português nos discos gravados em Londres pode ser interpretada como a necessidade de um exilado ser cidadão de dois mundos?
Caetano
 — Pode. Mas não necessariamente. Eu me sentia um cidadão do Brasil. Não me imaginava vivendo e trabalhando na Inglaterra.

ZH — Em relação a seu disco anterior gravado em Londres, Transa representa uma evolução em experimentação. Como foi o processo de elaboração de Transa num intervalo curto entre um disco e outro?
Caetano
 — Em primeiro lugar, nesse segundo ano na Inglaterra, já começava a gostar de lá, e a depressão pelo exílio ia me deixando. Depois, chamei Macalé, Tutty, Áureo e Moacyr. Com essa banda, dava para testar ideias, experimentar tipos livres de arranjos. No primeiro disco, eu tinha ficado passivo, seguindo as orientações dos produtores (Lou Reizner e Ralph Mace), mesmo que essas orientações fossem no sentido de ser mais eu mesmo. Por exemplo: só então gravei tocando eu mesmo o violão. Mas, com Transa, começamos desde os ensaios no Arts Lab. Gravamos o disco em quatro sessões. Foi quase ao vivo no estúdio. E as citações de canções brasileiras mais antigas me consolavam da falta que sentia do Brasil.

ZH — Apesar de você assinar sozinho a maioria das faixas, percebe-se que os músicos da banda contribuem com solos e texturas rítmicas e melódicas. Como se deu o processo de composição?
Caetano
 — As composições eram minhas. Eu as levava de casa para o estúdio de ensaio com as ideias de intercalação de trechos de outras canções já desenvolvidas. Também as ideias de arranjo eram basicamente minhas. Mas é claro que a qualidade e a inspiração dos músicos que tocavam comigo definiram o som a que chegamos. E Macalé tinha a responsabilidade de orientar o jeito da banda pôr em prática essas minhas ideias.

ZH — Qual foi a importância de Jards Macalé em Transa?
Caetano
 — Macalé tinha intimidade comigo havia anos. Assim, eu me sentia desinibido para me comunicar. Além disso, ele tem um estilo muito pessoal de tocar violão, e eu já o convidei (e tive ideias para arranjos) pensando nisso. Pedi que ele dirigisse nossa banda, e tudo fluiu com muita naturalidade.

ZH — Em Triste Bahia, você retoma um poema de Gregório de Mattos, aproximando percepções sobre a terra natal — críticas, mas também líricas e saudosas —, separadas por séculos e unidas pelo trauma comum do exílio forçado. Como foi a composição desta canção?
Caetano
 — Esse poema me impressionava muito. Gozado é que, na edição das obras dele que eu tinha, um verso estava transcrito errado. Em vez de “rica te vi eu já”, tinha “Rica te vejo eu já”, repetindo o verbo no presente. Gravei com esse erro (que, sem saber que era erro de impressão, me pareceu até rico poeticamente). Me lembro de ter pensado em fazer uma base à moda dos cantos de capoeira – e de sugerir que Tutty tocasse o berimbau em três afinações diferentes, superpondo-os para formar um acorde na abertura. O jeito de tocar ia sendo burilado nos ensaios. A ordem das citações era fixa. Fiquei muito feliz com o resultado quando a peça foi ficando pronta. A aceleração do andamento aconteceu espontaneamente, e a gente a adotou e frisou. Tudo ficou bonito.

ZH — Nine Out of Ten faz referência aos primeiros acordes do reggae ouvidos fora da Jamaica, em Portobello Road, que você incorporou ao disco de forma pioneira. Como foi esse contato com o reggae?
Caetano 
— Eu me apaixonei pelo reggae, junto com Péricles Cavalcanti, que gostava de passear comigo por Portobello. Nem sabíamos ainda o nome do novo ritmo. Quando aprendemos, passamos a repeti-lo em conversas com muita excitação. Quando compus a música (a que, para mim, tem a melhor das letras em inglês que escrevi), pedi a Moacyr Albuquerque, o baixista, que tentasse reproduzir a linha de baixo dos reggaes que ouvíamos. E ele foi perfeito nessa pioneira entrada do reggae na música brasileira. Ouvir a música dos jamaicanos naquela rua me fazia gostar de viver, ajudava a superar a saudade do Brasil. Compor e cantar era conseguir resistir.

ZH — It’s a Long Way cita os Beatles. Que importância eles tiveram em sua trajetória?
Caetano — Os Beatles tinham sido essenciais no nascedouro do tropicalismo. O Gil me chamou a atenção para a inventividade do grupo em 1966. Um ano antes, Marília Medalha tinha observado que Eleanor Rigby era uma canção linda. Mas o grupo de Liverpool ainda não era aceito nos meios sérios da MPB. Eu os adorava. Quando chegamos a Londres, Abbey Road estava para ser lançado, e o grupo se desfazia. Os Rolling Stones estavam na crista da onda, com um rock mais rock e sem riscos de desaparecer. Eu adorava Beggar’s Banquet. E, claro, Satisfaction tinha sido hit no Brasil antes de sairmos. Mas só vim a adorá-los quando os vi no palco. Nossos preferidos, antes de irmos para Londres, eram os Beatles, Jimi Hendrix, Janis Joplin e The Mothers of Invention. Também James Brown e figuras do blues, como John Lee Hooker. Mas já conhecíamos Pink Floyd e The Who. Lá, conhecemos Led Zeppelin, T-Rex (que eu adorava), Faces, Bowie (que eu não gostei quando vi). Eu adorava uma banda chamada Incredible String Band. Fui reouvir outro dia e fiquei encantado.

ZH — No começo dos anos 1970, Londres vivia a ressaca da efervescência hippie, da psicodelia, do fim dos Beatles. O que o levou a escolher essa cidade e qual foram suas impressões ao chegar lá?
Caetano
 — Saímos daqui enxotados. A Polícia Federal me pôs no assento do avião. Fomos para Lisboa, onde encontramos nosso empresário, Guilherme Araújo, que tinha ficado lá desde que, tendo ido para preparar a apresentação de Gil no festival Midem, soube de nossa prisão e distribuiu um panfleto de protesto contra a ação das forças de repressão brasileiras. Ele ficou uns 10 dias conosco em Portugal, mas sabíamos que lá não íamos ficar: o país ainda estava sob a ditadura salazarista, embora Salazar já tivesse morrido. De lá, fomos para Paris, onde ficamos um tempo. Guilherme achava que devíamos ir para Londres, por ser mais pacífica e por ter uma cena musical rica. Paris, que não tinha um pop moderno forte, estava na ressaca do maio de 68: a polícia pedia seus documentos a cada esquina. Londres era a escolha mais sensata. Mas eu apenas me resignei. Gostei do clima sem medo e da grama verde. Mas estava muito triste por dentro. Não tinha projetos nem desejos. Aí Ralph Mace apareceu propondo que gravássemos discos.

ZH — Como foi a reação do público inglês nas apresentações de Transa em Londres?
Caetano — Fizemos um show do Transa no Queen Elisabeth Hall impecável. Os amigos ingleses que fizemos ficaram bem impressionados, e os curiosos, que foram para ver o que era, ficaram surpresos. Havia nossos amigos brasileiros e alguns outros que pintaram para ver (não havia esse grande número de brasileiros que há hoje lá). Ralph Mace ficou muito animado, achando que uma carreira minha lá se iniciava. Mas, logo que eu soube que podia voltar para o Brasil, nem pensei duas vezes. Não me arrependo.

ZH — Existe a possibilidade de um show com a íntegra de Transa?
Caetano
 — Não creio. Estou ensaiando canções novas para gravar novo álbum. Quando fizer um show, canções de Transa vão estar presentes.

ZH — O clima de Transa sugere um ambiente de extrema criatividade e experimentação. Vocês tiveram contato com drogas lisérgicas que, naquela época, eram comum no universo da música pop?
Caetano
 — Tomei ayahuasca em São Paulo, em 1968. Tive uma viagem de visões bonitas, mas, depois de umas horas, fiquei angustiado. Pensei que estava louco para sempre. Nunca mais tomei nada desse tipo. Fumei maconha em 1967, mas tampouco fiquei feliz com a experiência. Era como se estivesse bem de saúde e tivesse, de repente, ficado com uma febre que fazia o coração bater e a cabeça ficar à beira do delírio. A sensação de que não media a duração do tempo era opressiva. Desisti. Bebia, mas nunca fiz disso um hábito. Parei de beber porque a ressaca é cada vez pior, e simplesmente não vale a pena. Sou perfeitamente careta no que diz respeito a drogas.

ZH — É verdade que o produtor Ralph Mace quis promover um encontro de você com David Bowie?
Caetano
 — Mace promoveu um encontro entre mim e Bowie. Fomos junto à Round House vê-lo no palco. Mas não gostei. No final, Mace me apresentou a ele. Apenas nos cumprimentamos cordialmente. Mace achava que eu poderia colaborar com Bowie em composições e ideias. Queria que eu fosse passar um tempo na casa dele, disse que eu adoraria Angela, a mulher de Bowie então. Dizem que é pra ela que Jagger fez Angie. Depois que ela e Bowie se separaram, Angela foi a um programa de TV nos EUA e contou que encontrou Jagger e Bowie na cama. Não pensei “escapei de uma boa”. Achei graça. Mas nunca fui fã do estilo de Bowie. Gosto dele como figura histórica, acho que é bom ator (Jagger, no cinema, é péssimo), e as gravações do período em que Brian Eno tocava com ele são bonitas. Mas sempre há algo cafona, falsamente chique naquele lance dele. Mas respeito. Ele produziu Walk on the Wild Side para Lou Reed, não foi?