28/01/2013 | 21h01m

Tragédia em Santa Maria

Conheça a história das catarinenses vítimas do incêndio em Santa Maria

As jovens foram veladas nesta segunda-feira perto de suas famílias

Thaís ao lado de um de seus animais de estimação

Thaís ao lado de um de seus animais de estimaçãoArquivo Pessoal / Divulgação

Cada uma das mais de 230 pessoas que morreram na boate Kiss, em Santa Maria, na madrugada deste domingo carregava uma história. Bruna Karolina Occai, Isabela Fiorini e Thaís Zimmermann Darif são catarinenses e tinham cada uma um sonho diferente, e buscavam começar a realizá-lo em Santa Maria. Porém, tiveram de dizer adeus às famílias que deixaram em SC. Elas queriam estudar no exterior, ou criar uma ONG.

Leia um pouco da história das catarinenses vítimas do incêndio e da gaúcha Marina de Jesus Nunes, mas que viveu muito tempo no munícipio de Maravilha :


Bruna Karolina Occai sonhava em estudar no Canadá


Faltava pouco para Bruna Karolina Occai, 24 anos, concluir o mestrado em Bioquímica Toxicológica, na UFSM. Ela já havia defendido a dissertação e bastava publicar um artigo científico. O próximo passo era a prova de Doutorado, em junho, e encaminhar um estágio no exterior.

— Ela queria ir para o Canadá — conta a tia e madrinha, Marines Bortoluzzi.

A sobrinha era um orgulho para a família pois poderia ser a segunda pessoa da cidade a fazer doutorado. A irmã Carina disse que ela sempre lhe incentivava a estudar. Além de inteligente, Bruna era bonita. Havia sido eleita Rainha de Belmonte, quando tinha 18 anos.

O tio e deputado federal Pedro Uczai lembrou que incentivou a sobrinha para que estudasse, dando dicas de como conseguir bolsa, pois a família é humilde. Ele foi reconhecer o corpo em Santa Maria, com o irmão e pai de Bruna, Antonio, e a madrinha Marines. Uma das coisas que os familiares lamentam é que Bruna pouco saía. A mãe, Cleci Maria Occai, chegou a incentivá-la para que saísse, quando a filha ligou, no sábado. Foi a última vez que ela falou com a filha.

Ontem a Igreja Católica de Belmonte, que tem cerca de 300 lugares, ficou pequena. Muita gente ficou de fora da missa. O enterro ocorreu por volta das 18 horas, no cemitério municipal. Lá descansará a jovem de Belmonte que pretendia ganhar o mundo, mas conseguiu realizar apenas parte de seu sonho.


Isabela Fiorini, a calma da família


Isabela Fiorini, 19 anos,
era a pessoa mais calma da família, na avaliação dos primos Pedro e Simone Fávero. Numa família de descendentes italianos, que gostam de se reunir para cozinhar e convesar, Isabela se destacava pela doçura e pela energia positiva que transmitia.


— Ela nunca brigou, nunca respondeu para alguém- disse Pedro. Ele considerava que a prima tinha uma inocência incomum. Mas sabia ficar longe de pretendentes, um pouco por timidez, um pouco por querer priorizar os estudos. O curso de Medicina Veterinária era a vocação da prima. — Desde pequena ela parecia uma encantadora de animais — recordou Pedro.

Quando via algum animal abandonado, já queria ajudar. Tanto que cuidava de um cachorro de rua, que chamava de Feruca. Em casa tinha um pastor belga, Órion. Isabella foi voluntária da ONG Amigo Bicho, em São Miguel do Oeste. E pretendia abrir uma clínica veterinária quando terminasse o curso. Ao ver a prima no caixão, no velório da Igreja São Miguel Arcanjo, em São Miguel do Oeste, Simone não conteve a emoção.


— Ela não é assim, ela é linda — observou. A amiga desde os seis anos de idade, Andrieli Ranzi, que era vizinha, conta que as duas construíram juntas o sonho de cursar Medicina Veterinária. Andrieli não quis se afastar da família e optou pelo curso na Facudades de Itapiranga. Isabela quis ir para a Universidade Federal de Santa Maria. Ela lembra da emoção que sentiu na formatura do Ensino Médio do Colégio La Salle, pois ambas só se veriam a partir de então no perído de férias.

— Agora nem isso vai acontecer mais — lamentou Andrieli.

Thaís Zimmermann Darif queria montar uma ONG pra proteção de animais


Thaís Zimermann Darif, uma das vítimas do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria no Rio Grande do Sul, tinha uma paixão tão grande por animais que ela pretendia fundar uma ONG para cuidar dos animais em Guaraciaba, sua terra natal, depois que concluísse o curso de Medicina Veterinária.

— Esse era o sonho dela — disse o pai Rogério, durante o velório, realizado ontem, na Igreja Nossa Senhora de Fátima, em Guaraciaba.

Thaís colaborava com a ONG "Amigo Bicho", em São Miguel do Oeste, onde estudava antes de ir para Santa Maria. Em casa, a família tinha quatro cachorros, sendo que Penélope, da raça Pincher, era o bichinho de estimação de Thaís. Há três meses, quando esteve visitando os pais, ela adotou mais uma vira-lata de rua, que chamou de Jujuba.

Os pais disseram que a filha era maravilhosa. Era muito caseira e gostava de estudar. Além da UFSM passou em veterinária também na UFSC, Udesc e Univesidade de Guarapuava-PR.

— Ela estava muito feliz — lembrou o pai, que até tinha ido para Santa Maria alugar o apartamento para a filha dividir com a colega Isabela Fiorini, de São Miguel do Oeste, que também acabou morrendo no incêndio.

Para o tio, Vander Salla Darif, fica a lembrança do verão passado, quando toda a família foi passar as férias na praia dos Ingleses, em Florianópolis. A amiga de Ensino Médio, Luíza Schmidt, lembrou que Thaís era muito companheira. Elas foram juntas assistir ao filme Lua Nova, no cinema.

— Ela era muito calma e meiga — lembrou.

Giovana, a irmã de apenas cinco anos, não pode conviver mais com a irmã. Mas aos poucos vai saber que aquele monte de gente que se aglomerou num dia de muito calor, em Guaraciaba, gostava muito dela.

Marina de Jesus Nunes: sonho em ser médica e a paixão pelo Internacional


Duas bandeiras e uma foto enfeitavam o caixão de Marina de Jesus Nunes, 20 anos, no velório realizado ontem, no salão comunitário da Igreja Católica de Maravilha. Uma das bandeiras era do Rio Grande do Sul, onde Marina nasceu, na cidade de Chiapeta. Suas amigas catarinenses até brincavam com o sotaque gaúcho da amiga, que há cerca de uma década foi morar em Maravilha. A outra bandeira era parecida. Mas em vez do brasão do estado vizinho, tinha no centro o distintivo do Internacional-RS.

De acordo com as amigas, ela até discutia com colegas gremistas. Mas sempre foi muito educada, segundo Priscila Saquet, com quem estudou na escola Nossa Senhora da Salete. Outra amiga, Sohaila Tidre, disse que Marina era muito alegre. E que jogava muito bem voleibol.

 — Todo mundo gostava dela — afirmou o irmão Matheus, ainda com o olhar que parecia um pouco perdido. Para Matheus, que sua irmã, que era dois aos mais velha, era uma pessoa "muito legal".

A vizinha Paula Cervinski lembrou dos brincos de argola de Marina, e que tinha o cabelo parecido com ela. As amigas afirmaram que a Medicina era uma paixão de Marina. Por isso ela foi para Santa Maria há dois anos para fazer cursinho pré-vestibular. Ela não havia conseguido passar na UFSM nas duas últimas tentativas. Mas as amigas apostavam em Marina.

— Ela não iria desistir — disse Priscila.

Veja onde aconteceu


A boate

Localizada na Rua Andradas, no centro da cidade da Região Central, a boate Kiss costumava sediar festas e shows para o público universitário da região. A casa noturna é distribuída em três ambientes - além da área principal, onde ficava o palco, tinha uma pista de dança e uma área vip. De acordo com o comando da Brigada Militar, a danceteria estava com o plano de prevenção de incêndios vencido desde agosto de 2012. 

Clique na imagem abaixo para ver a boate antes e depois do incêndio




A festa

Chamada de "Agromerados", a festa voltada para estudantes da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) começou às 23h de sábado. O evento era de acadêmicos dos cursos de Agronomia, Medicina Veterinária, Tecnologia de Alimentos, Zootecnia, Tecnologia em Agronegócio e Pedagogia. Segundo informações do site da casa noturna, os ingressos custavam R$ 15 e as atrações eram as bandas "Gurizadas Fandangueira", "Pimenta e seus Comparsas", além dos DJs Bolinha, Sandro Cidade e Juliano Paim.




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